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Uma Igreja missionária, terna, pobre e para os pobres

1. A Igreja de ontem, de hoje e de sempre, tem de ter os traços do rosto de Jesus Cristo, bom e belo pastor. Tem de ser, portanto, filial e fraterna, afectuosa e terna, próxima e acolhedora, casa de Deus no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas, como bem a retratou o Beato Papa João Paulo II na Catechesi tradendae [1979], n.o 67, e na Christifideles Laici [1988], n.º 26, e como saiu da paleta de tintas do Autor do Livro dos Actos dos Apóstolos, que nos mostrou uma Igreja bela, permanentemente à escuta da Palavra de Deus, aberta à comunhão, à fracção do pão e à oração (Actos 2,42-47; 4,32-35; 5,12-15), átrio permanente de fraternidade aberto ao mundo, de modo a ser e transparecer uma Igreja jovem, leve e bela, de tal modo jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela. Na verdade, crescia, crescia, crescia, dia após dia.

2. O Papa Francisco escreveu a sua primeira Mensagem para o Dia Missionário Mundial, a celebrar pela Igreja inteira no próximo dia 20 de Outubro, em pleno Ano da Fé. Por isso, o Papa articula o dom da fé, em que Deus vem ao encontro dos seus filhos com um amor ardente, reclamando de nós uma resposta ardente, que passará sempre pelo mais simples e mais comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao homem: todos somos amados por Deus. Para fazer este anúncio, essencial e não secundário, a Igreja tem de sair de si e de ir sempre até aos confins do mundo, até às periferias existenciais. O Papa Francisco toca assim temas que lhe são queridos, e mobiliza a Igreja inteira – bispos, presbíteros, consagrados, conselhos presbiterais e pastorais, todas as pessoas e todos os grupos –, para entrarem naquela «doce e reconfortante alegria de evangelizar», frase com que o Papa Francisco termina a sua Mensagem, e que já por mais de uma vez pediu emprestada a Paulo VI (Evangelii Nuntiandi, 80). Quer o Papa que a dimensão missionária não fique esquecida ou marginalizada. Ela deve ficar inscrita no coração de cada homem e de cada mulher, mas também em todos os programas pastorais e formativos.

 

3. E aí está, cravada no texto da Mensagem, outra ideia cara ao Papa Francisco: envolvida por este amor primeiro, a Igreja não pode ter o estilo e o método de uma empresa ou de uma ONG, pois deve saber que é uma comunidade de pessoas, animada pelo dinamismo do Espírito, que vive com alegria e espanto de Jesus Cristo e com Jesus Cristo, que não pode guardar só para si, mas transmitir a todos os homens.

4. «Evangelizar – escreveu com vigor e amor Paulo VI – constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda» (Evangelii Nunandi, 14). É por este caminho que a Igreja peregrina se compreenderá a si mesma como enviada e anunciadora, completamente vinculada ao seu Senhor (João 20,21), não seduzida pela novidade da última moda, mas bem assente na fidelidade ao seu Senhor, traduzida no dom total de si mesma, num estilo de vida pobre, humilde, despojado, feliz, apaixonado, ousado, próximo e dedicado. Sim, é Jesus Cristo, morto às nossas mãos, ressuscitado às mãos do Pai, o único fundamento posto para sempre por Deus (1 Coríntios 3,11). Preocupemo-nos então com o fundamento, e não passemos o nosso tempo, como os atenienses, sempre à espera das últimas novidades (Actos 17,21).

5. Passa por aqui o caminho e o rosto da Igreja, que tem de fazer a memória do seu Senhor, configurando-se com o seu Senhor e transfigurando-se no seu Senhor. Impõe-se, portanto, uma verdadeira conversão do coração, e não apenas uma mudança de verniz. Ao estilo do Papa Francisco, precisamos de anunciadores do Evangelho pobres e leves, sem ouro, prata, cobre, bolsas, duas túnicas (Mateus 19,9-10; Marcos 6,6-9; Lucas 9,3-4). Sim, foram assim os Santos, que se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por ser pobres e humildes, enquanto nós nos vamos esforçando tanto, e com tristeza (Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas CV18,23), por ser ricos e importantes!

+ António Couto