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Homilia do Sr. D. António Couto no Dia do Exército

Homilia pronunciada na Igreja Catedral de Lamego, por ocasião do Dia do Exército, a 28 de Outubro de 2013. Após a saudação às autoridades militares, civis e demais convidados, o Sr. D. António Couto, Bispo de Lamego pronunciou a seguinte homilia:

 

REZAR É PARA MILITARES!

 

1. Foi-nos dada a graça de ouvir hoje a parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18,9-14). Os dois sobem ao Templo para rezar. O fariseu e o publicano não são eles. Somos nós. E rezar não é para beatos e beatas de trazer por casa. Rezar é para militares e militantes. Rezar é um acto de verdade e de coragem, que implica o máximo risco. Trata-se, no fortíssimo dizer de Jeremias, de «empenhar [ou penhorar] o coração» (Jeremias 30,21). A linguagem é, infelizmente, bem nossa conhecida. Estamos empenhados. E muitos portugueses já têm a casa e o carro e outros bens penhorados. Sim, mas rezar é ainda mais difícil, e mais belo. Trata-se de penhorar o coração, de «pôr o coração no prego». Bem se vê que penhorar o coração é como subir a um poste de alta tensão, onde vemos escrito: «perigo de morte». É, pois, nesta situação-limite, que são colocados os dois homens de hoje, e nós também. Esta situação dá às coisas uma seriedade imensa e intensa. Podem ser os últimos cinco minutos da nossa vida.

2. Rezar é tanto! O fariseu que há em nós desperdiça esse tempo. Não pede auxílio, não estende a mão; antes, julgando-se o centro do mundo, procede a um estranho ritual de autoincensação, e debita facturas a Deus e insultos aos outros. A balança do deve e haver com Deus, pensa o fariseu que há em nós, está claramente desiquilibrada a seu favor. Aí estão as facturas que Deus terá de me pagar, diz o fariseu que há em mim: «Jejuo duas vezes por semana [a lei mandava jejuar uma vez], e pago o dízimo de todos os meus rendimentos» (Lucas 18,12). Julga o fariseu que há em nós que tem muito crédito acumulado face a Deus. E, por isso, até se dá ao luxo de dar graças (eucharistéô) a Deus por não ser como os outros, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este reles publicano (Lucas 18,11), estes, sim, cheios de dívidas para com Deus. Convenhamos que esta é uma estranha forma de dar graças a Deus, isto é, de «fazer eucaristia»! A oração do fariseu que há em nós não atravessa as nuvens, como a do humilde (Ben-Sirá 35,21). Desfaz-se contra as paredes da sua arrogância.

3. Ao fundo, sempre ao fundo, da cena, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, este pecador, este publicano, leva a sério a situação-limite que é rezar, que requer a verdade toda. Não vale a pena mentir à beira da morte! Sim, é um publicano, um cobrador de impostos, colector de dinheiro público, daí o publicano [do latim publicanus], é um traidor à pátria judaica, um vendido aos invasores romanos, um ladrão. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão. Conclui Jesus de forma solene: «Eu vos digo: “este desceu justificado para sua casa; o outro não”» (Lucas 18,14). Este justificado, no modo passivo, chamado passivo divino ou teológico, diz-nos que esta justificação é obra de Deus, não nossa. Na verdade, justificar significa transformar um pecador em justo. Então, justificar é perdoar. E, neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são acções que só Deus pode fazer: «quem pode perdoar os pecados senão Deus somente?» (Lucas 5,21). Transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da acção de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura.

4. O precioso Livro de Ben-Sirá, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, diz-nos que a oração do humilde atravessa as nuvens (Ben-Sirá 35,15-22). Belíssima expressão que cruza a oração com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, diz-nos Isaías, atravessa as nuvens para baixo, para fecundar a nossa terra (Isaías 55,10-11).

5. Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração, enquanto Deus não olhar para eles com um olhar de bondade (Ben-Sirá 35,21). É exactamente o modo como reza o publicano: «ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão», com olhar maternal.

6. Reza então, meu irmão. Como vês, rezar não é para beatos ou beatas de trazer por casa. Rezar é para militares e militantes, pois requer a coragem das situações-limite, podendo, de facto, mudar a nossa vida inteira. Possamos nós, caríssimos militares, meus irmãos, dizer como São Paulo, na recta final da sua vida: «Combati o bom e belo combate, terminei a carreira, guardei a fé» (2 Timóteo 4,7).

Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.

+ António Couto, Bispo de Lamego