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17

Abr

2017

Homilia de D. António Couto na Missa Crismal - 2017

AOS OMBROS E NO CORAÇÃO: A MISSÃO SACERDOTAL

 

1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar o evangelho aos pobres», assim se diz a si mesmo o profeta de Isaías 61,1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar o evangelho aos pobres», repete Jesus na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18), assumindo sobre Si a missão da paz e da alegria do Ano da Graça do Senhor. O Livro do Levítico expõe, num versículo sobrecarregado (25,9) o milagre do Ano Jubilar, acentuando a passagem do «tu» para o «vós»: «tu farás passar um shôphar»; «vós fareis passar um shôphar». Quer dizer que esta simples passagem do shôphar, a abrir o Ano Jubilar, opera a extraordinária operação da passagem do «tu» para o «vós», de uma simples soma ou ajuntamento de indivíduos para um Povo que encontra a sua identidade e unidade. Lendo novamente o texto, assalta-nos a impressão de uma verdadeira procissão que vai atravessando o território de Israel, e, à medida que vai passando, vai engrossando, e congregando todas as pessoas que encontra, mais ou menos à semelhança de quem vai entrando numa farândola, que é uma antiga dança provençal executada de mãos dadas.  Esta extraordinária passagem do shôphar, e aquele simples «porque o Senhor me ungiu», projetam no horizonte o milagre de um banho de água batismal, um caudal de óleo crismal a escorrer pela cabeça, pelo rosto, pelas vestes deste agora Povo de Deus, todo sacerdotal e santo (Êxodo 19,6; 1 Pedro 2,5.9; Apocalipse 1,4-6; 5,10), mas que antes não era sequer povo (1 Pedro 2,10).

 

2. Povo Santo de Deus, aí está a tua bela e funda identidade: povo batizado, crismado, cristificado. Encharcado em Cristo e de Cristo. Por isso, diz bem São Paulo aos Coríntios: «Vós sois de Cristo (tu és de Cristo), e Cristo é de Deus» (1 Coríntios 3,23). «Porque o Senhor me ungiu», diz o profeta. «Porque o Senhor me ungiu», diz Jesus Cristo. «Porque o Senhor nos ungiu», digamos nós também. Significa isto, antes de mais, que, para nos ungir com o seu óleo perfumado, Deus se aproxima tanto de nós, que toca em nós com a sua mão carinhosa! Exatamente como fazemos nós, ou como Deus faz por nós, quando ungimos com o óleo do crisma os recém-batizados, os crismados, os sacerdotes, os bispos, o corpo da igreja e os altares no dia da sua dedicação; com o óleo dos catecúmenos, aqueles que se preparam e dispõem para o batismo; com o óleo dos enfermos, aqueles que procuram alívio para as suas dores.

 

 

3. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar o evangelho aos pobres». Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos no sacerdócio, reunidos em unum prresbyterium, esta unção e esta missão sacerdotal. Unção e missão. Unção para a missão, pois não podemos desligar a unção que recebemos no coração da missão que igualmente recebemos de anunciar o evangelho. Unção de alegria e missão de amor: torrente que vem de Deus e que envolve, por graça, as nossas mãos, entranhas, pés e coração (cf. Salmo 45,8; Isaías 61,3; Hebreus 1,9). Mas não nos podemos esquecer que a missão deste Evangelho do óleo da alegria se destina aos pobres. Quem são os pobres? São aqueles que se sentem tão batidos e abatidos pelas desilusões da vida, que já não têm mais coração para tentar de novo; são aqueles que se sentem tão presos e incapacitados, que consideram a libertação e a liberdade uma miragem cruel; são aqueles que pensam que Deus se esqueceu deles, e que nunca mais terão um dia de alegria; são aqueles que pensam que a sua vida já não vale mais do que saco e cinza e lágrimas, e que por companhia têm o duro farnel do desespero. É a estes que Isaías e Jesus anunciam boas notícias vindas de Deus!

 

4. Caríssimos irmãos no sacerdócio, são estes pobres que devemos carregar aos ombros e no coração. Tentemos ir um pouco mais longe, ao encontro da beleza do nosso sacerdócio! Cantávamos há pouco no belo Salmo 89,21: «Encontrei o meu Servo David, e ungi-o com o meu óleo santo». Encontro e unção do rei segundo o coração de Deus (cf. 1 Samuel 13,14). E no Salmo 133,1-2, que é um um belo poema artisticamente construído em cascata, assim se canta a figura do sumo-sacerdote Aarão: «Como é bom,/ como é belo,/ viverem unidos os irmãos.// É como azeite do bom sobre a cabeça,/ descendo pela barba,/ a barba de Aarão,/ descendo sobre a boca das suas vestes».

 

5. Olhemos para o texto com mais atenção: vemos o azeite de oliveira, perfumado com mirra, cinamomo, cálamo e cássia (cf. Êxodo 30,22-33), a encharcar a cabeça e o cabelo de Aarão, a descer pela barba, e sobre a boca das vestes… A escrita é meticulosa e quer que se veja o azeite, não a descer pelo pescoço, mas por fora, encharcando o humeral (ʼephod), uma espécie de roquete que desce sobre os ombros, e, descendo sempre, encharca depois o peitoral (hoshen), bolsa quadrada, com 25 cm de lado, aplicada sobre o humeral, cobrindo o peito. Sim, quem escreve está interessado em que o azeite encharque o tecido que está sobre os ombros e sobre o peito do sacerdote. Sim, porque nas duas fitas do humeral que estão sobre os ombros, traz o sacerdote incrustradas duas pedras de ónix, uma sobre cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das doze tribos de Israel (cf. Êxodo 28,1-14). E, sobre o peito, no peitoral, traz o sacerdote doze pedras preciosas diferentes, e em cada uma delas está gravado o nome de uma das doze tribos de Israel (cf. Êxodo 28,15-30), irmanadas, como se fosse uma joia em unidade harmónica. Extraordinária simbologia! O sacerdote carrega aos ombros (Êxodo 28,12) e leva sobre o coração (Êxodo 28,29) todos e cada um dos filhos de Israel! É assim que se vê bem a missão do sacerdote. Mas vê-se igualmente bem que se trata de um povo todo ungido, todo sacerdotal e aromático.

 

6. Insisto ainda, amados irmãos no sacerdócio: é a este Povo concreto que Deus ama que temos a missão recebida de procurar, encontrar, tratar com carinho, carregar aos ombros e apertar com ternura junto ao coração (cf. Lucas 15,4-5; Ezequiel 34,11-16), de modo a realizarmos na nossa vida a extraordinária releitura do Livro da Sabedoria que admiravelmente diz que «sobre as vestes sacerdotais é transportado o mundo inteiro» (18,24). E daqui brota também o horizonte de compreensão do Decreto Conciliar Presbyterorum ordinis, n.º 15, que cita a 2 Carta aos Coríntios 12,15, e que refere que os sacerdotes se devem, não apenas «entregar», mas «super-entregar» (ekdapanêthêsomai) aos seus irmãos com um super-amor de pura oblação. Nenhum sacerdote se pode referir à sua bela missão como uma missão sem unção, como uma «carga do Senhor» (massa՚ YHWH), um «cargo», um «ofício», um «peso», uma «função». Jeremias critica duramente uma tal perversão de sentido (cf. Jeremias 23,33-38).

 

7. O sacerdote tem de ter um coração ungido, modelado pelo fogo. Entenda-se: um coração habitado pelo Espírito, pois, no dizer bíblico, é no coração que se derrama o Espírito de Deus: «Dar-vos-ei um coração novo; porei dentro de vós um Espírito novo; arrancarei da vossa carne o coração de pedra, dar-vos-ei um coração de carne, e porei o meu Espírito dentro de vós» (Ezequiel 36,26-27). Pentecostes de Espírito e de fogo a arder (cf. Atos 2,3-4), como aquela chama que chama Moisés na sarça do Sinai (cf. Êxodo 3,4), que arde no coração e nos ossos de Jeremias como um fogo devorador (cf. Jeremias 20,9), palavra a arder (cf. Jeremias 23,29), que dá sentido ao escuro interior dos dois discípulos de Emaús (cf. Lucas 24,32), como aquela «voz de um fino silêncio» que desperta Elias adormecido no meio do barulho (cf. 1 Rs 19,12), ou como aquele bisturi de línguas e sílabas de fogo que levamos cá dentro (cf. Hebreus, 4,12; Apocalipse 1,16), e que opera e limpa o nosso coração empedernido (cf. João 15,3).

 

8. É assim que o coração do sacerdote se deve tornar semelhante àquele altar onde arde um fogo perpétuo, cujas brasas têm que ser sempre renovadas, e cujo fogo nunca se pode deixar apagar. Este fogo é o meio através do qual se oferecem a Deus as ofertas do seu Povo (cf. Levítico 6,5-6). Por que é que este fogo não se pode deixar apagar, e o sacerdote tem de velar sempre para que permaneça aceso? Porque, na oferta de um sacrifício, o que conta não é a coisa oferecida, mas o meio usado para a fazer chegar a Deus. O meio é o fogo. Mas não o fogo que vulgarmente acendemos. É antes o fogo vindo de Deus, e que queima as nossas ofertas, fazendo-as subir até Deus (cf. Levítico 9,23-24; 1 Reis 18,38; 2 Crónicas 7,1; 2 Macabeus 1,18-36). Bem vistas as coisas, nós só podemos apresentar as ofertas, mas só Deus as pode tornar sagradas, comunicando-lhes a sua santidade, e fazê-las subir à sua presença através do fogo divino. Por isso, amados irmãos no sacerdócio, continuamos nós hoje a rezar, de mãos estendidas sobre o pão e o vinho: «Santificai estes dons, derramando sobre eles o Vosso Espírito, de modo que se convertam para nós, no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Anáfora II; as outras são semelhantes).

 

9. É por isso que o fogo do altar do incenso não se pode deixar apagar. Nem o fogo do altar antigo nem o fogo novo que arde continuamente no altar novo do nosso coração sacerdotal. Temos de velar por ele, de cuidar dele, de o manter vivo, e, porventura, de o guardar com particular cuidado e carinho, para que, a seu tempo, o possamos procurar e encontrar, como mostra de forma eloquente a bela história edificante narrada em 2 Macabeus 1,18-36. Por isso também nos adverte seriamente São Paulo: «Não extingais (sbénnymi) o Espírito» (1 Tessalonicenses 5,19). É sabido que o verbo grego que subjaz a «extinguir», sbénnymi, se aplica, em sentido próprio, ao fogo, podendo, no entanto, significar também, em sentido derivado, «abafar», «fazer calar».

 

10. Ao correr do texto do Evangelho de Lucas, diz-nos o narrador que Jesus se levantou para fazer a leitura (Lucas 4,16), leu, e sentou-se, e os olhos de todos estavam cravados (atenízô) nele (Lucas 4,20). Neste ponto, o leitor atento não pode deixar de formular a pergunta: levantou-se para fazer a leitura, ou para ser lido? Salta à vista que Jesus lê, se lê, e se deixa ler, sendo Ele próprio, no absolutamente extraordinário dizer de São Paulo, um texto escrito e exposto (proegráphê: aor2 pass. de proegráphô) em ponto-Cruz, Crucificado (estaurôménos: part. perf. pass. de stauróô), diante dos nossos olhos (Gálatas 3,1).

 

11. Crisma significa Unção; Cristo significa Ungido. O óleo do Crisma, com que todos, sacerdotes e fiéis leigos, somos ungidos em ponto-Cruz no coração, identifica-nos com Jesus Cristo e a sua missão. Este óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, amados irmãos no sacerdócio e no batismo, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a toda a criatura, como se lê no nosso programa pastoral para este Ano da Graça em curso. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós, à nossa volta. A messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Ámen.

 

Lamego, 13 de abril de 2017, Quinta-Feira Santa, Homilia na Missa Crismal

 

+ António, vosso bispo e irmão