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17

Abr

2017

Homilia de D. António Couto na Paixão Senhor - 2017

 

UMA SÓ CRUZ, UMA SÓ ESPERANÇA: A NOSSA FORÇA É O SENHOR!

 

1. Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.

 

2. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão no coração e com o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cedron e entrámos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas, mísero sucedâneo da LUZ, e com armas (João 18,3), como um salteador. Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, refere o relato de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos por Ele outra vez encontrados, acolhidos e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, nega ter alguma coisa a ver com Jesus, nega «ter parte» com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).

 

3. Bem vistas as coisas, parece que Pedro não conhecia mesmo Jesus. Na verdade, Pedro afirmou, durante a Ceia, estar disposto a dar a vida por Jesus (cf. João 13,37), porque era verdadeiramente amigo de Jesus. E pensava, de resto, que também Jesus estava disposto, se fosse o caso, a dar a sua vida por ele, porque era verdadeiramente amigo dele. Sim, a amizade e a simpatia são o cimento de verdadeiros grupos de amigos. E é da nossa humana experiência que os amigos a sério, a doer, estão sempre lá, disponíveis para se ajudarem uns aos outros, para se defenderem uns aos outros, se necessário for, lutando contra os agressores do seu grupo de amigos, ou de algum dos seus membros. Era assim que Pedro via Jesus como fazendo parte do seu grupo de amigos. E estava disposto a arriscar a vida por Jesus, lutando por Jesus, se necessário fosse. É por isso que, no «jardim», quando os salteadores queriam prender Jesus, Pedro puxou da espada, e feriu o servo do Sumo-Sacerdote (cf. João 18,10). Mas Jesus segura a mão de Pedro, com estas palavras imensas, que só um amor imenso pode ajudar a entender: «O cálice que o Pai me deu, não hei de bebê-lo?» (João 18,11). O que Jesus está a dizer é que o cálice que Ele deve beber é um dom do Pai! Quanto amor é necessário para reconhecermos na dor e no sofrimento um dom extraordinário do Pai, uma promessa de fecundidade!

 

 

4. Pedro era, de facto, amigo de Jesus, até ao ponto de arriscar a sua vida por Jesus, defendendo-o fosse contra quem fosse. Sim, Pedro era amigo de Jesus, mas não conhecia mesmo Jesus! Pensava Pedro que a amizade de Jesus se esgotava naquele grupo de amigos que entusiasticamente o seguia desde a Galileia. A desilusão e a crise de Pedro acontecem quando Pedro se apercebe de que, afinal, a amizade de Jesus não se confinava a si e ao seu grupo. Antes, a amizade de Jesus rebentava mesmo as fronteiras daquele pequeno grupo, pois Jesus amava de forma diferente. Tão diferente, que amava também os seus inimigos, aqueles que o odiavam e o queriam matar, os que eram diferentes dele e contra ele, dando por todos livremente a sua vida (cf. João 10,18). Foi, ao ver este amor novo, interminável e incontrolável de Jesus, que não se destinava apenas a ele e ao seu grupo, mas também aos que eram diferentes dele e contra ele, que Pedro entrou em crise profunda, se foi embora, andou perdido na noite, e se foi aquecer a outro lume. Mas foi também, ao compreender verdadeiramente este Amor novo e incontrolável de Jesus, que ama a todos, não se podendo confinar a uma pessoa ou a um qualquer grupo de amigos, que Pedro caiu de si abaixo, e saiu do pequeno palco em que se encontrava, para chorar lágrimas de dor e de amor novo. Como quem diz, com uma imensa expressão de espanto: «Há tanto tempo com Ele, e não o conhecia!» (cf. João 14,9). E pode acontecer que também nós, amados irmãos e irmãs, sejamos levados a ter de dizer a mesma coisa. Mas é sempre tempo de implorarmos de Deus o dom das lágrimas e de começar a compreender este amor novo de Jesus, que a todos abraça, não sendo pertença exclusiva de ninguém.

 

5. Sim, entendido e abraçado este Amor novo, também Pedro saltará barreiras e fronteiras e irá pelo mundo inteiro anunciar e mostrar o Amor novo que encontrou em Jesus, amando ele próprio da mesma maneira, até ao ponto de vir também ele a dar a sua vida por Amor, amando também ele aqueles que o odiavam e o queriam matar, e o mataram.

 

6. Esta Cruz Gloriosa e Vitoriosa, que hoje adoramos, expõe diante dos nossos olhos (Gálatas 3,1) esse amor puro e gratuito, sem motivo e sem fundo, sem barreiras nem fronteiras nem grupos, que Jesus dedica a todos, sem exceção. A mim e a ti, aos pobres, aos doentes, aos estrangeiros, aos indiferentes, aos que o odeiam e nos odeiam, aos que o perseguem e nos perseguem, aos que o mataram e nos querem matar, como está a acontecer em tantas comunidades cristãs do Médio-Oriente e de alguns países de África.

 

7. Sim, este Jesus que expomos e adoramos nesta Cruz, é de todos, ama a todos, dá a sua vida por todos. Portanto, não podemos guardar ou resguardar o nosso amor a Cristo no nosso pequeno grupo de amigos ou de pertença, mesmo nos grupos ou movimentos intra-eclesiais, tantas vezes autorreferenciais. Compreendamos bem que Jesus rebenta todas estas ligaduras. E é só saindo ao encontro do outro por amor, é só sendo evangelizadores no meio deste mundo, que cumprimos o mandamento de Jesus de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (cf. João 13,34; 15,12).

 

8. A peregrina Egéria, oriunda da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

 

9. Adoremos nós também, com amor, amados irmãos e irmãs, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida. Ao acariciarmos a Cruz de Jesus, sintamo-nos também por Ele acariciados. Com o intuito de mostrar a comunhão das Igrejas de todo o mundo com a Igreja de Jerusalém e da Terra Santa, o Papa Leão XIII instituiu, em 1887, o dia de Sexta-Feira Santa como Jornada de Oração e Ofertório Pontifício de ajuda à Custódia dos Lugares Santos e à Igreja presente na terra de Jesus. Nesse sentido, o contributo que hoje depusermos aos pés da Cruz do Senhor destina-se à conservação dos Lugares Santos da Terra Santa, e é também uma carícia fraterna para os nossos irmãos perseguidos até ao sangue nas igrejas irmãs do Médio Oriente, sobretudo na Síria e no Iraque.

 

Lamego, 14 de abril de 2017, Homilia na Celebração da Paixão do Senhor

 

+ António, vosso bispo e irmão