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Narrativa do tríduo Pascal

A celebração do tríduo Pascal é uma oportunidade sempre oportuna para fazer florescer algumas ideias e consolidar algumas reflexões diante do mistério da Paixão iluminada por outro mistério, o da Ressurreição. Diante desta oportunidade gostaria de partilhar alguns pensamentos que brotam da vivência e celebração dos últimos momentos da vida terrena de Jesus. Hans Urs von Balthasar nas suas meditações e reflexões chamou-lhe a “teologia dos três dias” apresentando o grande mistério ocorrido nos três dias que antecedem o Domingo de Páscoa, sem nunca esquecer a profunda relação entre estes dois acontecimentos. Eu chamar-lhe-ei apenas “narrativa do tríduo” porque apresentar nestas breves linhas que se seguem um pensamento sistematizado ao ponto de lhe chamar teológico não se adequaria à finalidade pelo qual escrevo. Esta narrativa segue uma lógica particular centrada na perspetiva cristológica onde Jesus Cristo manifesta a Sua missão, espero um dia apresentar uma visão mais completa onde esta narrativa apresente a missão do Pai e do Espírito Santo, partilhando com os leitores uma “narrativa trinitária”.

A Despedida que gera Presença – Quinta-feira Santa

A nossa narrativa tem o seu início, neste tríduo, no momento em que encontramos Jesus com os seus discípulos. De facto, se há uma grande lição a tirar da vida de Jesus é que seguir a Sua Palavra, não é seguir um pensamento, uma doutrina, mas realizar um encontro, um encontro ímpar, o encontro de cada um de nós com Deus. Jesus está com os seus discípulos no momento da Última Ceia, como esteve tantas vezes ao longo da sua vida pública, mas este estar com foi radicalmente distinto de todos os outros encontros, porque o que estava para acontecer ia constituir uma verdadeira memória.
Jesus está com os seus discípulos porque toda a Sua vida foi marcada pela dádiva ao outro: deu a conhecer a Sua missão, deu a conhecer uma boa notícia, deu a conhecer quem é Deus, enfim deu-Se a toda a humanidade. Mas neste momento, este dar-Se, foi absoluto porque desde esse momento a humanidade teve a oportunidade de O encontrar, sentir, ouvir, abraçar, tal como estes seus discípulos o puderam fazer. Jesus queria preparar o coração dos seus discípulos para os momentos assoladores que se seguiriam a este encontro e, por isso, dá-Se, mais uma vez, através de uma despedida.
O concílio de Calcedónia indica-nos que Jesus é “verdadeiro Deus e verdadeiro Homem” pelo que nesta passagem da Última Ceia podemos ver como Jesus, verdadeiro Homem, quis apoiar aqueles que são os seus amigos num momento único e irrepetível e, verdadeiro Deus, imprimiu naquele momento, um memorial da sua presença para todo o sempre. Entre nós também já experimentamos o processo de criar uma memória com alguém, que torna um gesto, uma palavra, um momento, presente na nossa vida, sempre que o recordamos. Contudo, Jesus neste momento não institui uma memória que apenas aparece como lembrança, para ser lembrado: Jesus, neste evento, dá início a uma memória com a qual se tornar presente de forma tão real como estava nesta Última Ceia.
Hoje, pelas circunstâncias que todos sabemos, não tivemos a oportunidade de receber esta dádiva da presença real de Jesus, mas sabemos que, pelo ministério sacerdotal ordenado, Jesus renovou hoje, mais uma vez, esta Sua presença junto da humanidade para preparar o meu e o teu coração para o dia avassalador de amanhã.
 Nesta sua despedida, Jesus tornou-se presença junto de nós, dando-Se, para que cada um de nós aprenda a dar-se, hoje e sempre: “Fazei isto em memória de mim”. Que a Eucaristia que hoje talvez só vimos, seja a oportunidade para que no próximo encontro possa sentir a verdadeira presença de Jesus e com Ele aprender a dar-me todos os dias.

O que há depois da cruz? – Sexta-feira Santa

A nossa narrativa continua com o culminar da entrega de Jesus ao Pai e à humanidade. A cruz, que ao nossos olhos parece ser o lugar sem outro lugar depois, o lugar do fim, alcança em Jesus um outro significado. Sendo Ele “verdadeiro Deus e verdeiro Homem” não deixa de experimentar a morte, não deixa de partilhar a fragilidade mais profunda do género humano como verdeiro Homem, todavia, como verdeiro Deus concretiza a sua entrega ao Pai “Pai em Tuas mãos entrego o Meu espírito” e, nessa entrega, oferece toda a humanidade, cada um de nós.
Esse instrumento de morte ganha um novo sentido, não é mais um instrumento do fim, mas de uma vida nova, da possibilidade de uma vida em comunhão. De facto, parece estranho quando algo que manifesta a dor e a agonia nos abre à vida e vida em abundância.
Mas e depois? Depois o que acontece?
Confesso desde já que as palavras que agora apresentarei não são as palavras da reflexão patrística que apresentam Jesus nos “lugares inferiores” a resgatar todos aqueles que esperavam a sua redenção, nem as do silêncio de Balthasar que manifesta, por um lado, a radical kenosis do Filho, e, por outro, a absoluta solidariedade com a humanidade, experimentando esse momento de total afastamento e de silêncio que a morte compreende.
O caminho que procuro descrever é outro. É o caminho da lágrima que desce sobre o rosto de uma mãe que vê, contranatura, o seu filho morto. É o caminho daquele amigo que percorre com o corpo sem vida até o colocar no lugar do seu repouso. É o caminho que aquele grupo de amigos fazem com os aromas e perfumes nas mãos, mas que a observância do preceito impede de prestar o necessário adeus a quem mudou as suas vidas.
Este caminho, que faz crescer a narrativa, é um caminho que encontramos hoje ao nosso lado, junto daqueles que não podem dizer como gostariam o seu adeus àqueles que partem. É a insatisfação de não poder fazer e dizer mais alguma coisa, porque não é possível.
E é em todo esse caminho, caminho depois da cruz, que Jesus está, como “verdadeiro Deus e verdadeiro Homem”. Está para resgatar, está no silêncio, está nessa presença inerte que parece transcrever o fim, mas está sempre a gerar Vida.
A cruz, possivelmente, continuará no mesmo lugar durante a noite, as lágrimas continuarão a atravessar o mesmo caminho que, ao longo do adeus, aprenderam a percorrer, os outros aromas e perfumes continuarão à espera para serem usados de modo a disfarçar o odor da morte. E talvez, só então vejamos que a cruz se torna árvore da Vida, as lágrimas em manifestação de alegria e o perfume em unção que nos recorda a vida.
Hoje contemplemos Aquele que, estando estendido por terra, é preparado para ser guardado no túmulo, onde fará brilhar a herança para nós criada. Sim, agora a Sua humanidade parece falar mais alto com a sua morte, mas em breve a Sua divindade se pronunciará e a Sua Palavra será completa.

Um dia de vazio para se chegar ao da plenitude – Sábado Santo

A narrativa continua porque o fim ainda não foi alcançado. É verdade que um texto tem muitos pontos finais, mas o seu fim, o seu derradeiro Fim não fica enredado nessas pausas momentâneas. A cruz podia terrenamente ser o fim, mas na realidade do que somos, criaturas à imagem de semelhança de Deus, esta muito longe de a vermos como o Fim. Por isso acrescentamos mais umas linhas a esta narrativa que não para porque o ponto final da cruz dá introdução a um novo parágrafo da historia. Este novo parágrafo foi escrito com o sangue redentor de Jesus, num silêncio que abalou toda a criação. É um parágrafo que se vai compondo tendo como luz a Luz que brilhou na total ausência de claridade provocada pela morte, acrescentada pela escuridão do túmulo onde o corpo do Senhor foi colocado.
Naquele túmulo está Jesus. Naquele escuro túmulo o corpo do “verdadeiro Deus e verdadeiro Homem” repousa da entrega radical que acaba de ser concluída. Repousa do sacrifício extenuante que desfigurou o “mais belo dos filhos dos homens”, mas que não fez extinguir a Beleza. Naquele túmulo Jesus partilha até ao mais íntimo da natureza humana que na sua fragilidade vê extinto os seus dias. Sim, Ele é verdadeiro Homem e por isso o seu corpo agora repousa no túmulo como o de todo o ser humano e este repouso é vazio, é silêncio, é pausa, é ponto final, mas não é o nada, nem muito menos é o Fim.
Este repouso é solidariedade com a natureza humana. É a afirmação mais radical da Sua humanidade, tão profunda como a sua incarnação. Mas também é o novo início para esta humanidade que até então vivia prisioneira, carregando o peso das cadeias da morte. Na verdade, até agora a morte tinha sido sempre a vencedora, não porque fosse conclusiva, mas porque tinha força para ocultar a esperança, porque toldava o olhar entre aqueles que partiam e aqueles os amavam. Entre o Criador e as suas criaturas. Entre a vida e a Vida.
É então que Jesus, verdadeiro Homem, padece esta morte e destrói a força da morte com que até então estava investida. Em si, o pequeno, porém difícil, ponto final de cada existência continua a suceder-se, mas agora como um sono com o qual somos embalados, para depois despertarmos num “novo dia”. Esta vitória só foi possível porque Jesus é verdadeiro Deus que, na sua missão e ação, nos restaura para um novo início onde a esperança brilha, a comunhão vence e a vida permanece para sempre.
Esta ação de Jesus na sua união hipostática (humana e divina) abre um novo caminho que exige um seguimento e uma tomada de decisão. Esta vitória não destrói o nosso caminho pessoal, antes o renova e lhe dá uma configuração baseada na esperança. Mas o caminho, esse caminho que começa neste novo paragrafo, neste vazio antes de aparecerem os primeiros carateres da nossa vida, ou de cada decisão, tem de ser redigido por cada um de nós. O vazio que hoje celebramos no sábado Santo é o preludio da plenitude de um caminho de comunhão, amor e Vida que Jesus nos abriu com a sua morte e repouso no túmulo. Agora que vivemos este vazio, de tantos momentos sem sentido ou esperança, de morte e violência, de pontos finais que parecem não deixar ver o início do novo parágrafo a surgir, acordemos o nosso coração e lembremos-lhe que a plenitude só se alcança quando antes experimentámos o vazio.


Pe. Miguel Peixoto, in Voz de Lamego, ano 90/20, n.º 4555, 14 de abril de 2020

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