A familiaridade com o Senhor é sempre comunitária

Os tempos de dificuldade (crises) foram, ao longo da história, momentos que ajudaram a compreender os modelos de conhecimento e estilos de vida que muitas vezes se assumem, esquecendo, tantas vezes, um profundo exame reflexivo que nos ajuda a compreender as razões das nossas opções, saberes e vivências. O confinamento a que agora nos vemos obrigados, certamente tão redutor para as nossas rotinas, trouxe pelos menos uma oportunidade: ter tempo para refletir e para examinar a nossa vida.

A este propósito, a Igreja também teve, e ainda tem, à luz desta crise, como em tantas outras, a oportunidade de se repensar e de fazer florescer uma experiência que proporcione a realidade própria do cristianismo, isto é, o encontro com o Senhor. Digo Igreja, porque a Igreja é a reunião de todos os batizados que partilham a mesma fé baseada na mensagem ensinada por Jesus Cristo e explicada pelo magistério. Isto significa que todos estamos envolvidos, todos somos chamados, todos somos enviados a fazer esta experiência com o Senhor, reconhecendo que, nestas expressões, o uso do plural não é expressão indicativa de um fator integrativo, mas o sublinhar da expressão comunitária da vida da Igreja.

É verdade que, neste tempo, estamos impedidos de viver fisicamente a dimensão comunitária da nossa fé, mas isso não significa que a dimensão comunitária tenha desaparecido. Este momento é a oportunidade de clarificar como a comunidade permanece unida como Igreja universal, mesmo que esteja impedida de manifestar fisicamente essa mesma unidade. Como sabemos o Papa é o garante dessa unidade em toda a Igreja universal, o Bispo diocesano na sua diocese, o pároco na paróquia, todavia todos o batizado deve sentir esta comunhão, não só no sentido jurídico, mas principalmente no sentido da caridade, no Amor que brota de Deus Pai, se manifesta em Deus Filho e se fundamenta em Deus Espírito Santo. Este é o grande dom que a fé permite e que nenhuma fronteiras, barreiras e limite, seja de que natureza for, pode fragmentar ou impedir. De facto, é neste campo que a comunhão comunitária cresce e frutifica, pois a fé é dom recebido que apenas cresce quando é vivida em comunidade. Assim, fomentar esta consciência e consolidar momentos e oportunidades para que os cristãos reconheçam que não estão sós, antes em comunhão com Deus e com os seus irmão, trona-se fundamental para a praxis dos nossos pastores.

As diferentes celebrações que proliferam nos meios de comunicação social são já expressão dessa comunidade, mas não são essa unidade. São sinais em momentos de prova, mas não são o que realmente significam. Assim, é necessário explicar sempre que estes sinais são o que é possível neste momento, mas não esgotam a totalidade do encontro com o Senhor, que acontece nos sacramentos ou na expressão comunitária da fé.

Penso que terá sido este o pensamento que levou o Papa Francisco no passado dia 17 de abril, na homilia da celebração eucarística em Santa Marta, a indicar que uma “familiaridade sem comunidade, sem Pão, sem Igreja, sem povo, sem sacramentos é perigosa. Pode tornar-se uma familiaridade gnóstica, uma familiaridade só para mim, desligada do povo de Deus”.
Este é um grande risco que corremos ao cimentar uma expressão de fé desenraizada da comunidade e do sentido sacramental. Assim, torna-se imperativo crescer nesta familiaridade com o Senhor sempre num sentido comunitário que passa pelo crescimento na fé eclesial, segundo o modelo da Igreja primitiva apresentada no livro dos Atos dos Apóstolos (2, 42-46): assíduos ao ensino dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações vivendo como se tivessem uma só alma.

Assim, o povo de Deus deve saber que os seus sacerdotes continuam a celebrar a eucaristia nas suas comunidades pelas suas necessidades físicas e espirituais, a rezar pelos que lhe estão confiados, a viver a caridade quando legalmente não estão condicionados.
E todos, em comunidade espiritual, dia a dia com oração, com a meditação da Palavra de Deus, com a catequese, com a doutrina, com o encontro com o Senhor compreender que a dimensão comunitária continua, porque todos continuamos unidos, cada vez mais familiarizados, com esse Deus que se fez carne para se tornar presença no meio de todos nós.

Este é um desafio que a todos nos provoca, pois todos podemos crescer na familiaridade com o Senhor, mas também na experiência comunitária que fortalece aquela familiaridade. Que as famílias façam renascer o dom da fé no amor esponsal e no amor para com os seus filhos. Que os sacerdotes renovem o compromisso de cuidar e guiar o seu povo. Que o povo de Deus se sinta amado e partilhe esse amor com todos aqueles que doaram a sua vida para os ajudar a conhecer melhor este Deus que é presença, amor, família e comunidade e que a todos nos quer como verdadeiros filhos.


Pe. Miguel Peixoto, in Voz de Lamego, ano 90/22, n.º 4557, 28 de abril de 2020

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