Previous Next

Entrevista com o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Tarouca, Valdemar de Carvalho Pereira

Esta semana, com a Voz de Lamego revisitamos o Vale Encantado de Tarouca. Segue-se a conversa que mantivemos com o Sr. Presidente da Câmara Municipal.
Valdemar de Carvalho Pereira é natural de Ferreirim, do concelho de Lamego, casado, pai de duas filhas, avô de 5 netos, e empresário reconhecido na região, antes de assumir a Presidência do Município.

Voz de Lamego – A pandemia do novo coronavírus colocou-nos a todos em alerta. A resposta, como em tantas situações, passa pela intervenção local, em que o Presidente do Município tem um papel essencial, de coordenação e intervenção. Como tem vivido o concelho estes tempos? Principais necessidades e constrangimentos…

O Presidente da Câmara, nestes tempos de pandemia, obrigou-se a assumir, junto com as entidades locais, um papel de garante da saúde pública no concelho, disponibilizando meios físicos e humanos para o combate à mesma. A par de todas as entidades locais participou e participa ativamente na procura de soluções para a minimização dos efeitos do vírus no nosso concelho.  
Importante referir que este trabalho é muito difícil de realizar, pois como sabemos aos municípios não era facultada a identidade de qualquer caso covid-19 ou de qualquer contacto direto, pelo que apenas nos era possível intervir nas famílias ou indivíduos que ligavam a informar da sua situação de saúde.

VL – O impacto económico foi certamente notado nas empresas e nas famílias. Que medidas foram implementadas pelo Município para acorrer às diferentes situações e para minimizar os prejuízos e as dificuldades sentidas?

Como é do conhecimento geral, o Município, assumiu desde o início da pandemia, portanto março de 2020, um papel ativo e solidário para com as famílias que sofreram e sofrem, ao nível económico, os efeitos da pandemia, bem como os nossos empresários locais.
No caso das famílias, a título de exemplo, mantemos a distribuição de alimentos, medicamentos, refeições a crianças em isolamento profilático em coordenação com o agrupamento de escolas, realizamos acompanhamento psicológico e mantemos a disponibilidade para adquirir e entregar os bens essenciais.
No que diz respeito às empresas têm vindo a ser tomadas algumas medias, que são aquelas que se encontram no nosso âmbito de competências, entre as várias ações destacamos a isenção do pagamento da água, saneamento e resíduos por 3 meses, a isenção de pagamento de ocupação da via publica (esplanadas), isenção de pagamento de taxas de publicidade, e agora no natal a avançamos com um projeto de incentivo às compras no comercio local, sendo que o valor gasto nestes estabelecimentos poderia ser trocado por vouchers para serem gastos nos restaurantes locais.
Entre outras medidas de carater pontual.
De realçar a última medida e de igual importância, que foi a criação da equipa multidisciplinar de apoio ao cidadão em isolamento, que se encontra a trabalhar diariamente.

VL – As IPSS´s de toda a região foram chamadas a prestar um apoio social decisivo à população, ao mesmo tempo que tiveram de cumprir apertadas medidas de segurança. Como foi a resposta das Instituições Sociais no Concelho? Que papel coube à Câmara?

A Câmara Municipal desde março que tem vindo a apoiar o cidadão individualmente e a apoiar incondicionalmente as IPSS’s do concelho, nomeadamente com a disponibilização de trabalhadores do município a integrar as equipas de trabalho dessas instituições, para conseguirem implementar os horários em espelho, e assim minimizar o risco de contágio.
Medida esta também alargada ao centro de saúde local.

VL – O turismo, fundamental na nossa região, foi amplamente afetado, com um decréscimo acentuado no número de visitantes. A restauração, a hotelaria, pequenas empresas, produtos com a marca do Concelho, viram-se em grandes dificuldades. Foi adotada alguma medida especial para este setor e que expetativas tem para a atividade turística para o concelho em 2021?

Como referi, o município, na época natalícia, lançou a campanha da troca das faturas das compras efetuadas no comercio local por vouchers que depois iriam ser apresentados nos restaurantes locais. Com esta medida o Município apoiou o pequeno comercio local, bem como o setor da restauração.
Aguardamos ansiosamente por medidas concretas do estado central, pois como saberá esta competência não cabe aos municípios, sendo irregulares as despesas que se verificam fora do âmbito das nossas competências.

VL – Nesse sentido, ainda, como é que foi a coordenação das medidas a implementar entre o poder local, bem no interior do país, e os organismos centrais? E já agora, a inserção na CIMDOURO tem contribuído para uma resposta conjunta mais coordenada e eficiente?

A CIMDOURO, e os autarcas que ali têm assento, reúnem periodicamente com o objetivo de partilhar experiências, mas também para que façamos uma comunicação em bloco junto do poder central, onde temos vindo a reivindicar apoio para os nossos cidadãos e empresários.
Acreditamos que as medidas até hoje apresentadas não têm respondido às reais necessidades dos nossos territórios, pois apenas adiam e agravam os problemas existentes e a CIMDOURO não tem orçamento para poder apoiar o município diretamente.
Cada um dos municípios, sem qualquer orientação do poder central, tem vindo a tomar medidas de combate à pandemia, sem qualquer apoio financeiro ou logístico, atribuindo assim uma fatia do orçamento municipal para a efetiva defesa da saúde das nossas gentes.

VL – A dinâmica dos municípios foi igualmente decisiva neste contexto. Mas, apesar dos constrangimentos, os projetos em curso continuaram. O que gostaria de ver concretizado até ao final deste mandato autárquico?

Os recursos são finitos, e neste momento a nossa prioridade é o combate a esta crise pandémica.
Contudo e apesar dos constrangimentos provocados pela pandemia, tínhamos um conjunto de projetos em curso ou em fase de contratação, resultado de obras por administração direta ou investimentos com apoio comunitário, que atrasaram a sua concretização, mas estamos certos de que vamos conseguir realizar todos esses investimentos, pois são fundamentais para o desenvolvimento económico e social do concelho.
Sem especificar as obras de proximidade, que são de enorme importância para quem precisa destes pequenos investimentos diariamente, os quais são na sua maioria realizados pelos funcionários do município que demonstraram durante este período uma persistência e resiliência fora do normal, pelo que lhes estamos gratos.
Durante este período de pandemia terminamos a Zona Ribeirinha de Tarouca, a substituição para LED’s de toda a Iluminação Publica do Concelho de Tarouca, a reabilitação do bairro social e as novas instalações do Julgado de Paz.
Em curso encontra-se a 2ª fase Zona Ribeirinha de Ucanha, o restauro da Igreja de São Pedro de Tarouca, a construção do parque de Santa Helena, a substituição dos abrigos de passageiros e a 2ª fase do morro de Alcácima, bem como a realização da Estratégia Local de Habitação, um documento extremamente importante para a gestão autárquica diária neste setor.
Nos últimos tempos foi adjudicada a Área de Acolhimento Empresarial Local, a Zona Ribeirinha de Mondim da Beira, a intervenção dos passeios e passadeiras entre Tarouca e Castanheiro do Outro e a interface de táxis na Cidade de Tarouca, investimentos que esperamos o início da obra a breve prazo.
Obviamente os projetos que tínhamos planeado na área de eventos e atração turística tiveram que ser adiados, pois este vírus não deixa que os possamos realizar neste momento, mas estamos certos de que assim que for possível recuperaremos todo este tempo. 

VL – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

A vontade férrea dos homens e mulheres de outros tempos deixaram-nos um vastíssimo património histórico-cultural e arquitetónico, também a natureza foi pródiga em dotar Tarouca de um património natural ímpar.
O Concelho de Tarouca, devido ao seu relevo montanhoso, possui inúmeros recantos de onde é possível desfrutar as belíssimas paisagens que compõem o cenário da região.
Tarouca tem um Património Histórico inigualável, os dois mosteiros da Ordem de Cister, a ponte e torre fortificada de Ucanha, a Igreja de São Pedro de Tarouca, a Casa do Paço e bem como as pontes romanas e românicas existentes são locais de visita obrigatória.
Aliado a tudo isso, tem um património humano fantástico, de gentes humildes, trabalhadoras e de uma hospitalidade singular.
Já oferecemos a quem nos visita o conforto de muitas quintas, hotéis e alojamento local onde podem desfrutar do conforto, recanto de sossego, simpatia e profissionalismo na receção.

VL – A população concelhia, a exemplo do que acontece em todo o interior português, envelhece e diminui. Que consequências se avizinham? Como contrariar o êxodo da população a que assistimos e favorecer a sua fixação entre nós? Como vê, a partir do lugar que ocupa, a situação do País? Tendo em conta também os tempos que se avizinham…

Todo o interior de Portugal necessita de uma estratégia de verdadeira coesão territorial, sob pena de vermos os nossos territórios cada vez mais desumanizados. Qualquer ação realizada pelos municípios, são autênticas gotas de água no oceano, só uma estratégia nacional pode contrariar a tendência atual.
Felizmente, com algumas das ações que temos vindo a desenvolver temos conseguido travar este flagelo, o Concelho de Tarouca aumentou a sua população nos últimos dois anos, facto que não acontecia desde 1980, mas sabemos que esta estatística oscila anualmente.
Tudo faremos para fixar a população, principalmente os mais jovens, mas estamos conscientes da dificuldade deste propósito, pois aqueles que conseguem uma qualificação superior, muitas vezes só encontram trabalho para a sua área de formação no litoral.
Estamos certos que hoje temos uma oferta de excelência na área da cultura, da educação, da saúde, do desporto e lazer melhor que muitas das grandes cidades, a qualidade de vida nestes meios mais pequenos é de excelência, sem filas de transito, sem listas de espera para tantos serviços básicos, sem o stress diário, mas sabemos que é necessário que as famílias obtenham rendimentos para poder viver, e por isso é que muitos partem para as grandes cidades ou para o estrangeiro, procurando um posto de trabalho e o seu salario mensal.

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico, que balanço faz do trabalho realizado?

Lidero uma equipa e sempre foi meu desejo exercer esta função de Presidente da Câmara numa atitude de verdadeira proximidade, de contacto fácil e com capacidade de resolver pequenos problemas que se prolongam no tempo.
Além disso fomos capazes de realizar, com candidaturas a fundos comunitários, um conjunto de investimentos necessários para o desenvolvimento do nosso território e com o objetivo de fixar pessoas. Alguns já se encontram numa fase terminal e outros estão neste momento em curso, aos quais já antes me referi.
Sinto que estamos a conseguir concretizar aquilo a que nos propusemos, sendo a nossa principal missão melhorar a qualidade de vida e aumentar as oportunidades dos que aqui residem.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

É difícil expressar o que me vai na alma neste momento, pois passamos por momentos de medo e insegurança, porem dou a garantia a todos os munícipes que tudo farei, o que estiver ao meu alcance para conseguirmos voltar ao nosso dia a dia com maior normalidade.
A pandemia terá consequências muito graves ao nível económico e social nos tempos que se seguem, tudo farei para dar resposta às situações de emergência que vamos identificando, mas estou certo de que juntos, com esforço de todos, responsabilidade e entreajuda havemos de conseguir ultrapassar.
Deixar um abraço fraterno, de solidariedade a cada um dos nossos cidadãos, esperando que se protejam e tudo corra pelo melhor, deixando a minha inteira disponibilidade e de toda a equipa que hoje lidero, para dar resposta aos anseios de todos.

 

in Voz de Lamego, ano 91/14, n.º 4596, 16 de fevereiro de 2021