Previous Next

Entrevista com o Dr. João Paulo da Fonseca, Presidente da Câmara Municipal de Armamar

Esta semana a Voz de Lamego vai ao encontro do excelentíssimo Presidente da Câmara Municipal de Armamar. João Paulo Soares Carvalho Pereira da Fonseca é natural de Armamar, casado e pai de três filhos.

Voz de Lamego – A pandemia do novo coronavírus colocou-nos a todos em alerta. A resposta, como em tantas situações, passa pela intervenção local, em que o Presidente do Município tem um papel essencial, de coordenação e intervenção. Como tem vivido o concelho estes tempos? Principais necessidades e constrangimentos…

A pandemia da COVID-19 vai-nos ficar na memória para toda a vida. Este fenómeno, ainda mal explicado, alterou completamente as nossas vidas. As famílias deixaram de poder encontrar-se, temos idosos em lares que não veem ou abraçam os seus familiares há meses, crianças privadas da escola, com implicações sérias no seu plano de estudo e privados da socialização a que estavam habituados e que tanto precisam. As empresas e todo o setor económico fortemente condicionado, passaram de um dia para o outro a trabalhar, ou não, na base da sobrevivência diária, com postos de trabalho em risco permanente.
Naturalmente, enquanto presidente de Câmara Municipal, não me tenho poupado, encetando todos os esforços e procurando estabelecer pontes entre as forças vivas do concelho e de fora dele para dar a resposta que se impõe. É preciso salvaguardar a saúde e a segurança sanitária dos Armamarenses. É isso que me move neste momento.

VL – O impacto económico foi certamente notado nas empresas e nas famílias. Que medidas foram implementadas pelo Município para acorrer às diferentes situações e para minimizar os prejuízos e as dificuldades sentidas?

Os Armamarenses sabem que o município é um parceiro estratégico, atento ao que se passa no dia a dia das famílias, das empresas e das instituições. Com o toque a rebate a 13 de março, a Autarquia multiplicou esforços, preparou uma série de ações de vigilância e auxílio que colocou no terreno com a rapidez possível.
O Serviço Municipal de Proteção Civil coordenou esses esforços em articulação com as autoridades regionais de saúde, os bombeiros voluntários, as forças de segurança, as Juntas de Freguesia, o Agrupamento de Escolas e as IPSS, entre outros.
Os serviços de ação social da Autarquia puseram a funcionar uma Linha de Apoio à Comunidade, para garantir a entrega de bens de primeira necessidade, medicamentos e providenciar transporte de e para a sede do concelho às pessoas mais isoladas e sem retaguarda familiar.
Em articulação com as direções das IPSS procuramos perceber as necessidades e ajudamos para que nada falte aos utentes e aos funcionários das instituições que, a par dos profissionais de saúde, têm sido verdadeiros heróis neste contexto.
Com a direção do Agrupamento de Escolas fizemos o trabalho necessário para garantir que os estabelecimentos escolares podem funcionar garantindo a segurança da comunidade educativa. Numa segunda fase, com a implementação do ensino à distância, procurámos garantir a maior igualdade dos alunos no acesso às ferramentas digitais que necessitavam para continuar a estudar.

VL – As IPSS de toda a região foram chamadas a prestar um apoio social decisivo à população, ao mesmo tempo que tiveram de cumprir apertadas medidas de segurança. Como foi a resposta das Instituições Sociais no Concelho? Que papel coube à Câmara?

Enquanto Armamarense sinto orgulho na ação das nossas IPSS. Na qualidade de presidente da Câmara Municipal tenho o privilégio, e a responsabilidade, de acompanhar de perto o trabalho que têm feito. As direções e os funcionários das IPSS trabalham para lá das suas forças. O espírito de entrega é impressionante. Não podemos esquecer que, tal como acontece na maioria dos concelhos do interior do País, prevalece uma população de idade avançada, muitos sem retaguarda familiar. Quem fica tem que os ajudar, seja nas instalações dos lares e centros de dia seja nos serviços de apoio domiciliário. E estas pessoas que trabalham nos lares, mais que profissionais são também a família dessas pessoas.
Neste contexto tenho garantido que da parte da Autarquia nada lhes falte para prosseguirem a sua missão, ainda mais importante nesta fase em que a saúde dos utentes pode ser seriamente afetada pela exposição ao vírus. Já por várias vezes temos destacado trabalhadores da Autarquia para reforçar o contingente das IPSS e ajudar no que for necessário.

VL – O turismo, fundamental na nossa região, foi amplamente afetado, com um decréscimo acentuado no número de visitantes. A restauração, a hotelaria, pequenas empresas, produtos com a marca do Concelho, viram-se em grandes dificuldades. Foi adotada alguma medida especial para este setor e que expetativas tem para a atividade turística para o concelho em 2021?

Pelo que estamos a ver o ano 2021 será ainda um ano de relativa incerteza. Está tudo muito dependente da concretização do plano de vacinação para que se crie a tão necessária imunidade de grupo.
O ano 2020 foi um ano terrível para o setor económico do município. No setor do turismo o investimento privado cresceu muito últimos anos, uns de maior dimensão e outros mais pequenos. De uma maneira geral, e pelo feedback que fui colhendo junto deles, as perdas são muito significativas, a vida como que parou. Mas, pelo que conheço deles, estou certo que já estarão a pensar na melhor forma de inverter este ciclo, porque vamos vencer esta pandemia. A Autarquia terá a porta aberta para ajudar na recuperação e retomar o ritmo de crescimento que conhecíamos até finais de 2019.

VL – Nesse sentido, ainda, como é que foi a coordenação das medidas a implementar entre o poder local, bem no interior do país, e os organismos centrais? E já agora, a inserção na CIMDOURO tem contribuído para uma resposta conjunta mais coordenada e eficiente?

A coordenação e o diálogo entre os centros de decisão e o interior do País continua a ser fraca, infelizmente. A administração central toma medidas muitas vezes sem ouvir quem está na linha da frente, no contacto direto com os cidadãos. O papel fundamental das Autarquias e dos Autarcas tem sido secundarizado, e depois somos confrontados muitas vezes com medidas fora de contexto.
Não será fácil, neste cenário inédito, tomar decisões plenamente acertadas. Mas acredito que uma maior ligação com as regiões, e aqui a CIM DOURO está preparada para esse papel fundamental, permitiriam certamente ajustar as melhores respostas aos diferentes cenários. As nossas dificuldades, as nossas necessidades, não se podem comparar ou ter como referencial os grandes centros urbanos do litoral.
Mas tem valido a nossa resiliência, o espírito combativo e a força das nossas gentes já habituadas a resolver os seus problemas sem esperar que de fora apareçam as soluções milagrosas.

VL – A dinâmica dos municípios foi igualmente decisiva neste contexto. Mas, apesar dos constrangimentos, os projetos em curso continuaram. O que gostaria de ver concretizado até ao final deste mandato autárquico?

A Câmara Municipal tem tentado ao longo deste último ano que a calendarização dos projetos em curso sofra o menor atraso possível.
Temos algumas obras importantes a decorrer, como a requalificação da rua do Outeiro no centro histórico da vila, um aglomerado populacional testemunho do povoamento medieval da vila. Também na praceta 25 de abril estamos a fazer uma obra importante. É naquele espaço que nos últimos anos os Armamarenses se têm reunido nos eventos maiores do calendário anual, como as festas do município e a Feira da Maçã, a montra do nosso trabalho efetivo e do nosso potencial. A intervenção em curso foi pensada para proporcionar as melhores condições para estes eventos e, estou convicto, é isso que vai acontecer.
Outra das obras em curso é a renovação integral da iluminação pública do concelho. Vamos passar a ter a tecnologia LED em todas as localidades, com ganhos para a segurança das nossas populações, uma grande poupança na fatura energética e, não menos importante, um reflexo muito positivo na preservação do meio ambiente.
Está praticamente finalizada a obra da requalificação energética do edifício dos Paços do Concelho, importante para a redução dos custos energéticos de funcionamento do espaço e, mais uma vez, um incremento na pegada ecológica do Concelho.
Uma obra importante, sobretudo para as camadas mais jovens, e uma pretensão antiga é a construção do pavilhão gimnodesportivo em Armamar. É uma obra que quero ver começada até ao último trimestre do ano.
Também ainda vão ser iniciadas obras de requalificação de várias estradas da rede viária do concelho, incluindo o troço entre Armamar e Fontelo, naquilo que é a nossa ligação à A24.
Até ao final deste mandato quero ver obra feita em matéria de turismo e cultura. Há dois projetos que considero importantes: vamos instalar o Museu da Mulher Duriense no edifício da antiga Adega Cooperativa de Armamar, um projeto que estamos a desenvolver em conjunto com o Museu do Douro; depois temos um projeto ao nível dos percursos pedestres, e aqui realço a ligação da GR 14 ao concelho de Lamego. A rota atualmente termina na nossa fronteira com o concelho de Tabuaço e a ideia é fazê-la atravessar o concelho de Armamar pela parte norte e “entregá-la” a Lamego.

VL – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

Armamar é uma terra cada vez mais virada para o Mundo!
Temos uma forte dinâmica económica no setor agrícola. Produzem-se em Armamar alguns dos melhores vinhos DOC Douro e Porto e a Maçã de Montanha é um símbolo que temos vindo a potenciar. Há cada vez mais investimentos de jovens na agricultura e percebemos o reflexo disso na fixação da população e na natalidade que vêm crescendo, fenómeno raro num concelho do interior do País.
Recentemente, como referi, tem havido um forte investimento no setor do turismo, com novas unidades de alojamento a surgir com padrões de qualidade muito interessantes. Isso tem tido um reflexo positivo na procura por Armamar e no número de visitantes que acolhemos.
Eu penso que Armamar beneficia, e pode tirar muito partido, da localização geográfica privilegiada, mesmo no contexto do Douro Vinhateiro, com excelentes acessibilidades a vias de comunicação que nos põem, por exemplo, a menos de hora e meia do Aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Há motivos de sobra para nos visitar! O Vale do Douro e as suas Quintas, o planalto beirão e as nossas maçãs de montanha. O nosso riquíssimo património histórico e cultural, com locais de inegável interesse, como a Igreja Matriz de São Miguel de Armamar e a Ermida de São Domingos em Fontelo, lugar que é um dos mais bonitos miradouros durienses. E depois temos a gastronomia, que resulta do nosso trabalho agrícola, do nosso contexto rural. Os Armamarenses são gente calorosa, com orgulho na sua identidade e que gosta de mostrar o que de melhor temos. Enfim, só vendo!


VL – A população concelhia, a exemplo do que acontece em todo o interior português, envelhece e diminui. Que consequências se avizinham? Como contrariar o êxodo da população a que assistimos e favorecer a sua fixação entre nós? Como vê, a partir do lugar que ocupa, a situação do País? Tendo em conta também os tempos que se avizinham…

Eu acredito que Armamar vai conseguir superar relativamente bem os tempos difíceis que aí vêm. Primeiro é preciso debelar esta crise mundial de saúde pública. Depois é pôr mãos à obra e trabalhar para voltar ao normal, ainda que seja como se tem dito, um novo normal.
Nós em Armamar vivemos do que colhemos. O setor agrícola, mesmo com todas as dificuldades, vai sobrevivendo e os mercados vão precisar dos nossos produtos. O ser humano vai continuar a precisar de comer!
Ora face a essa necessidade eu acredito que os nossos jovens vão continuar a apostar na agricultura, na sua terra, e vão fixar raízes contrariando a tendência das últimas décadas.
Estou, portanto, cautelosamente otimista. Vamos ter que trabalhar muito, trabalhar bem, mas acho que vamos colher bons frutos!

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico, que balanço faz do trabalho realizado?

Temos conseguido fazer um trabalho que nos enobrece. Há diversos projetos em curso que resultam do trabalho feito nos últimos anos, com uma série de investimentos estruturantes para Armamar, e tudo isto ao mesmo tempo que conseguimos consolidar a trajetória de consolidação do equilíbrio da situação financeira do município.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

Acreditem! Sejam o que têm sido: lutadores, trabalhadores, solidários. Este momento inédito nas nossas vidas tem-nos dado muitas lições. Vamos procurar tirar delas o essencial e, assim que pudermos, voltar às nossas vidas com um sentimento reforçado de confiança.
Deem o que de melhor tiverem que eu vou estar, como até aqui, disponível para ajudar e fazer o meu melhor.


in Voz de Lamego, ano 91/15, n.º 4597, 23 de fevereiro de 2021