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Duas palavras em jeito de testemunho

Foram diversas as pessoas que se quiseram associar a mais uma homenagem a D. António Francisco dos Santos, falecido em 11 de setembro de 2017, então Bispo do Porto, com boas e  gratas recordações que deixou na cidade e na diocese de Lamego.
A cerimónia contou com muitos testemunhos, alguns previamente gravados, outros, ligaram-se em direto, outros deslocaram-se ao local, primeiro à rotunda do Centro Escolar n.º 1 e depois ao Auditório do Centro Escolar.
Estiveram presentes os párocos de Almacave, de Penude e de Magueija. O Pe. José Pinto Guedes e Pe. Adriano Cardoso Monteiro eram condiscípulos de D. António. Coube ao Monsenhor Guedes o testemunho que agora reproduzimos. Um testemunho, com duas palavras:

“A primeira, é um testemunho da vivência da ordenação episcopal do Sr. D. António Francisco dos Santos. E ela tem a ver precisamente com o momento em que, depois de ter sido acolhido por essa multidão imensa que encheu a Sé Catedral, vivendo emotivamente a sua ordenação episcopal, partilhando comigo e com o Padre Adriano, os seus condiscípulos, o abraço da alegria, da partilha e de uma imensa intimidade que sempre nos uniu… acompanhei-o a Casa São José e aí, já com as suas vestes episcopais, o D. António quis [festejar com alegria, em ação de graças ] com a sua mãe… com o seu olhar profundo, de que ele foi herdeiro, já tão fragilizada no seu corpo, ao contemplar e ao ver o filho com as vestes episcopais, ela não resistiu e foi capaz de deixar passar para fora, em duas lágrimas que lhe rasgaram rosto, a alegria, com certeza, da gratidão, da felicidade, mas sobretudo do seu grande amor ao filho. O D. António debruçou-se sobre ela, ela com as suas lágrimas encheu o seu rosto e o rosto do António, assim o chamava, não foi um rosto impressionado pela fraqueza da sua mãe, mas ele sentiu, mais uma vez, aquela que era uma das expressões, entre tantas, e que o identificaram com o seu projeto de vida… Aqui está uma: “Os pobres não podem esperar”, mas o D. António também dizia que as mães nunca perdem o jeito de embalar, mesmo que partam para a eternidade, elas continuam a embalar, nos seus braços, os filhos que geraram e que nasceram do seu ventre; este momento, que eu pude observar, quero partilhá-lo convosco. Faz hoje 16 anos, seria pelas seis horas da tarde, depois de terem terminado as cerimónias na Sé. Naquele momento, deixai que vos diga, quando os vi abraçados um ao outro, tive vontade de me ajoelhar diante de dois santos que os meus olhos contemplavam.
Hoje, nesta homenagem ao António, não se pode excluir a sua mãe, bem como também o seu pai, que ele perdeu no Brasil, ainda com 15 anos de idade, e o padre Adriano comigo, não esqueceremos nunca o seu grito de dor ao ser-lhe dada a notícia pelo então Vice-Reitor do Seminário que era um Monsenhor Simão Botelho, também de grata recordação e eterna saudade. Esta era uma palavra.

A segunda, tem a ver com a realidade que hoje aqui vivemos. Todos nós temos de estar gratos à Câmara Municipal por não querer deixar esquecer a memória daquele que estava sempre o próximo de Lamego. Temos connosco o Sr. D. Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa, e ele, mais do que ninguém, pode confirmar aquela palavra que eu vou dizer, [pois foi o seu Vigário Geral na Diocese do Porto]. Quando, em cerimónias solenes, a caminho do altar, ou noutras circunstâncias, D. António, quando aparecia uma pessoa de Lamego, ele deixava tudo e ia e avançava para cumprimentar alguém que estava ali de Lamego. Esta é, de facto, uma marca do coração lamecense de D. António. Seria injusto que esta cidade não tivesse uma referência para que sentisse que o D. António é aquele que mais nos aproxima de Deus e Lamego, quando passar por aqui, seja quem for, lembrar-se-á que próximos de D. António nós estamos mais próximos de Deus porque ele, junto de Deus, continua a ser o grande amigo de todos os lamecenses.

 

in Voz de Lamego, ano 91/19, n.º 4601, 23 de março de 2021