À conversa com a professora Glória Gonçalves

“Não há nada mais gratificante para mim enquanto docente do que poder ser a base na vida académica de uma criança e ter a possibilidade de continuar a ser referência ao longo da sua vida.”

Reconhece que o mais difícil nestes dois confinamentos foi encontrar-se a si mesma.
Glória Gonçalves, 37 anos, natural de Amarante, mãe e professora do 1.º ciclo reconhece que ao final de muitos anos encontrou um lugar especial para fazer aquilo que mais gosta. Além de um ambiente familiar encontrou uma casa habitada por monges Beneditinos que acabam por ser conselheiros espirituais pela sua proximidade, experiência cuja vivência monástica influencia toda a comunidade educativa.
Na entrevista dada à Voz de Lamego, Glória Gonçalves defende a importância do professor adaptar-se às novas tecnologias para aprender, enriquecer a sua missão e ser um possibilitador de novas aquisições.

Como é que uma professora de Amarante chega a Lamego?
A Glória chega a Lamego como estudante no Pólo Educacional. Foi cá que me formei como professora e mantive sempre a ligação através de amigos que perduram.
Esta cidade passou a ser minha também, longe de saber que seria a minha segunda casa novamente.

Que relação tem com a cidade?
Enquanto estudante descobri Lamego em todo o seu esplendor.  É uma cidade tranquila, como eu gosto, dona de uma beleza incomparável, com um vasto património cultural e as pessoas são afáveis.
Lamego faz parte da minha história.

Porquê o Colégio de Lamego?
Pela instituição em si, pela sua história, pelo conhecimento do trabalho desenvolvido que vai de encontro aos meus ideais de educação.
Quando surgiu a oportunidade de poder vir a pertencer a esta família de ser parte desta casa de afetos foi seguir rumo a Lamego com o coração cheio de esperança, valorização pessoal e profissional, toda a formação em que investi e fui adquirindo na construção do meu curriculum despertou a atenção da direção do Colégio. Era apenas mais uma entrevista, mas com uma emoção associada, consegui a oportunidade que ambicionava. Desde esse dia memorável sou Colégio de Lamego, faço parte desta casa, deste projeto que é educar com amor.

Como viveu estes dois confinamentos?
Os confinamentos foram vividos de forma diferente, o primeiro foi embarcar no desconhecido, na adaptação à “clausura “, o aceitar a ausência de afetos físicos, o não tocar o não aproximar, todas as restrições levaram-me a uma gestão emocional constante com o medo sempre presente. Não foi fácil conciliar sem descurar os meus papéis como professora, aluna e mãe.
 Foram tempos de busca de conhecimentos informáticos para conseguir acompanhar esta nova era digital no ensino e continuar a ser a professora que sou em sala de aula mas com tempo limitado.
Neste, vi a oportunidade de desligar o “piloto automático” em que vivia, passei a desfrutar desta imposição necessária, a observar com mais atenção o que me rodeava, dedicar mais tempo à parentalidade consciente, à atenção plena nas pequenas rotinas mas sobretudo dediquei tempo a conhecer-me.
Tive dias de descontentamento, de tristeza por não abraçar a minha filha mesmo ao meu lado com medo mas por amor, senti-me desgastada física e psicologicamente…
O segundo confinamento foi apenas retomar a rotina mas com serenidade e munida de recursos profissionais mas sobretudo emocionais.
A mesma situação mas com uma vivência diferente, o medo e a desorientação deixaram de estar presentes dando lugar à aceitação, à tranquilidade e a um receio controlado.
O distanciamento físico é necessário, urgente, mas o social não! Por isso encontrei tempo para estar mais presente com aqueles que me rodeavam, a falta de tempo e a pressa para tudo passou a ser tempo de qualidade, de presença.
Em todas as situações é necessário equilíbrio e eu fui mantendo o meu através da prática do Yoga, da meditação e do exercício físico. Manter a mente sã para ser capaz de gerir a castração que o COVID-19 me trouxe.  

O que foi mais difícil para si? Ser mãe ou ser professora e porquê?
O mais difícil foi mesmo encontrar o “eu Glória” para poder ser e estar para os outros no primeiro confinamento.
Foi difícil encontrar argumentos para explicar à minha filha, com 8 anos, o porquê de tudo aquilo que estávamos a viver e a todos os porquês dela, dar resposta à saudade dos amigos, da professora, da escola, das idas ao parque… muitas vezes chorei com ela.
Neste confinamento a primeira semana foi de gestão, adaptação aos horários enquanto mãe/professora e filha/estudante uma vez que a minha filha é aluna do colégio no qual leciono e o tempo de síncrono é o mesmo.
Foi uma adaptação complexa e cansativa após encerrar o “online por hoje”. Após este há um acompanhamento de mãe nas tarefas diárias, nos trabalhos de casa, no estudo complementar, era e continuou a ser uma rotina, uma mãe que alimenta, que cuida das rotinas básicas diárias e após o descanso da filha, a cadeira da professora volta a ter forma, as luzes do ecrã voltam a acender, a música de fundo do teclado do computador passa a ocupar o silêncio da noite para que tudo esteja preparado para as novas aprendizagens, para as novas descobertas de conhecimento.
É um desafio diário manter os alunos motivados, atentos mantendo o encantamento por aprender, poder permanecer presente nas suas vidas e nas suas partilhas da mesma forma que presencial. Muitas vezes ,em período assíncrono, ficávamos conectados individualmente e foi maravilhoso continuar a ter as nossas conversas, os nossos momentos de professora/ aluno, momentos este facilitados por número reduzido de alunos na turma.
Um professor não deixa de ser professor após sair da escola, de encerrar a reunião é - o a tempo inteiro, tal como ser mãe.
Tudo se consegue com carinho, dedicação e muita resiliência.

Acredita que a tecnologia não tende a ser um inimigo no ensino?
A tecnologia é um complemento ao ensino e não um substituto do lápis, do caderno ou do livro.
Esta permite-nos melhorar, enquanto profissionais, na abordagem de conteúdos de forma diversificada tornando-se uma mais valia na aprendizagem das nossas crianças.
Quando orientados pelo professor as novas tecnologias desafiam os alunos a pensar, a comunicar, a explorar, a comunicar com o mundo e a criar, abrem-se novas janelas de pensamento.
No ensino online os alunos tiveram a oportunidade de conhecer toda esta diversidade tecnológica, as suas regras e vantagens, o seu manuseamento através da interação em jogos coletivos, aprenderam de forma diferente porque os conteúdos ganharam uma nova vida facilitando o processo de aprendizagem em tempos controversos.
O professor deve adaptar-se às novas tecnologias, deve querer aprender para poder enriquecer a sua missão e ser possibilitador de novas aquisições.

Sente-se realizada enquanto professora? Como se define?
Completamente. Encontrei o meu lugar, uma instituição que cheira a lar, que aconchega e acarinha, que respira alegria, risos e brincadeiras, que transborda de cuidados, dedicação e perseverança.  
O Colégio não é apenas uma escola onde apenas dou aulas, é uma escola de proximidade e de união é uma segunda família para os nossos alunos. Todos se conhecem, todos se cuidam.
O Colégio valoriza o professor em todas as suas valências não apenas pelo curriculum. Aqui vivo em pleno a minha profissão, para além de ser professora titular do 1.º ano foi-me dada a possibilidade de transmitir outros conhecimentos através da Expressão Dramática e o Yoga na formação de todos os alunos do 1.º Ciclo.
 Aqui sou muito feliz, objetivo pessoal e profissional alcançado.
Defino-me como um ser em constante aprendizagem e crescimento pessoal. Vivo o pessoal e o profissional com a mesma dedicação e entusiasmo. Sou de desafios, de projetos, adoro a minha profissão, amo ser mãe, adoro a vida!

Qual ou quais as suas motivações em trabalhar no ensino privado?
Trabalhar no privado foi sempre um objetivo. A possibilidade de estabilizar a minha vida e a da minha filha evitando andar ao sabor das colocações públicas sem desistir da minha profissão.
O ensino privado privilegia bases educacionais com as quais me identifico tais como a continuidade pedagógica, ensino individualizado, transmissão contínua de valores e regras de conduta, um acompanhamento com atenção igual para todos os alunos …
No privado existe um cuidado acrescido em ajustar o ensino às particularidades do aluno, onde este é estimulado a refletir mais e não apenas aprender de forma mecânica os conteúdos formais. Conhecemos melhor os alunos, as suas capacidades, as suas limitações, os seus sonhos e a nossa ligação é de proximidade bem como das famílias.
O facto de as turmas serem de número reduzido, em comparação com o público, facilita todo o processo de ensino aprendizagem.

Quais os seus próximos projetos?
Pretendo permanecer no Colégio de Lamego e dar continuidade ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido quer pela instituição quer por mim acrescentado o Yoga e o mindfulness para crianças como complemento ao ensino dos nossos alunos.

Qual foi o momento mais gratificante para si enquanto professora?
Todos os dias são gratificantes, sou muito feliz no meu trabalho, nas minhas funções.
Sou grata pelos alunos que tenho, por fazer parte da vida deles, por ser motivo de alegria e vontade de aprender, de ir para a escola.
Todos os dias sou presenteada pelos seus olhos sorridentes, pelas suas manifestações de carinho através de uma pedrinha ou flores do jardim, por desenhos com mensagens mas sobretudo pelo facto de estarem presentes e felizes na minha companhia.
Não há nada mais gratificante para mim enquanto docente do que poder ser a base na vida académica de uma criança e ter a possibilidade de continuar a ser referência ao longo da sua vida.
Educar é um desafio permanente mas com amor, tudo se faz, tudo se consegue.

 

in Voz de Lamego, ano 91/19, n.º 4601, 23 de março de 2021