Uma vez mais e como tem acontecido desde tempos recônditos, Lamego mobilizou-se para a Procissão do Senhor dos Passos, um momento sempre tocante que agrega multidões e agrafa sentimentos de comunhão e lacrimosa emoção. Procurando reproduzir os passos de Jesus até ao Calvário, ela assimila-se a uma autêntica Via Sacra.
Ressalve-se, entretanto, que a titularidade «Passos» vai muito além de «andamento». Como precisou o Senhor Bispo, «Passo» vem do latim «passu», particípio passado do verbo «pati» (sofrer), referindo-se «passu» àquele que sofreu. Por conseguinte, dizer «Senhor dos Passos» é o mesmo que dizer «Senhor que sofreu».
O mesmo se refira a propósito de «Compasso», nome por que é designada a Visita Pascal. Aqui, «Compasso» não é o instrumento para traçar circunferências nem designa tampouco a marcha «ao mesmo passo». O Compasso pascal advém da locução latina «Crux "cum passo" Domino», que significa «Cruz em que o Senhor sofreu».
Foi este «Senhor que sofreu» (e sofre pois, segundo Pascal, Ele está em agonia até ao fim dos tempos) que, após a vestidura e bênção das flores, saiu à rua, acompanhado pela imagem de Nossa Senhora das Sete Dores.
A noite de quinta-feira, 27 de março, fez «desaguar» uma expressiva multidão em procissão, que iluminava as ruas de Lamego com a luz das velas e as regava com lágrimas de silenciosa unção. O silêncio era intervalado pela entoação repetida da invocação: «Meu Jesus, por Vossos passos, recebei em vossos Vossos braços, a mim, pobre pecador, a mim, pobre pecador»!
E foi assim que, multitudinariamente, se foi destilando uma atmosfera penitencial pelas artérias da urbe lamecense. Entre a Igreja da Graça e a Igreja Catedral, respirou-se vibração e oração.
Ao chegar à Catedral, o Padre José António Magalhães Rodrigues proferiu uma intervenção procurando vincar o sentido redentor dos passos e das dores, como caminho para a grande vitória da Ressurreição.
O final desta celebração inclui, à porta da Sé, a distribuição do tradicional «pão quente», guardado em duas volumosas tendas. É costume imemorial os habitantes desta cidade aconchegarem o estômago (na noite da quinta-feira dos Passos) com esta preciosidade, condimentada com açúcar, manteiga e canela.
Pelas 16h de Domingo, 30 de Março, iniciou-se a procissão em sentido inverso: da Igreja Catedral para a Igreja da Graça. Sob a presidência do Senhor Bispo, D. António Couto, o cortejo processional foi acompanhado pelos sons da Filarmónica.
O povo marcou, de novo, uma presença dilatada, acompanhado por sacerdotes, autoridades, irmandades, escuteiros e outros servidores.
No quarto Domingo da Quaresma, ouve-se entre os circunstantes: «Passos, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos». E, de facto, pouco falta para a celebração da Páscoa. Mas, em boa verdade, na Páscoa já estamos, da Páscoa já vivemos, em Páscoa crescemos, para a Páscoa peregrinamos. Na esperança que não engana (cf. Rom 5, 5).
António Teixeira, in Voz de Lamego, ano 95/20, n.º 4797, de 2 de abril 2025