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João Duarte Rebelo “Festa” O NOBRE CAPITÃO DO SPORTING CLUBE DE LAMEGO

Foi a época de ouro do futebol português. Os anos 50 e 60 eram vividos com a seleção nacional e os grandes clubes a escreverem algumas das mais notáveis páginas da sua história. Milhares de adeptos enchiam por completo, aos domingos à tarde, os estádios para assistir às extraordinárias exibições de Mário Coluna, Travassos ou Hernâni. Era um tempo em que os atletas sentiam o peso das camisolas e o amor ao emblema sobrepunha-se a tudo o resto.
Longe de todo este bulício, muitas crianças e jovens estendiam-se pela zona alta da cidade de Lamego a correr atrás de um novelo de farrapos, uma espécie de bola improvisada. Unia-os a veneração pelos seus ídolos que apenas conseguiam admirar à distância, através dos relatos radiofónicos, e que tentavam depois imitar, muitas vezes descalços.

Albergue de numerosas famílias, a Rua da Seara e as zonas envolventes destacavam-se no meio desta azáfama desportiva, a que se juntava uma intensa atividade comercial animada por pequenas chafaricas e tabernas que pontuavam por ali. Com uma estatura física invejável e um bom jogo aéreo, João Duarte Rebelo começou cedo a dar nas vistas. Os primeiros toques na bola foram dados na companhia de alguns amigos que, anos depois, iria reencontrar no Estádio dos Remédios. Era a casa do clube mais antigo e representativo da cidade e da região do Douro - o Sporting Clube de Lamego -, fundado em 1934. Foi o caso de Palhinhas”, “Jorginho Chinês”, Joca, Fernandito, Delfim, Júlio “Pineu”, Manecas e Tonibé, entre outros.  

Os atributos que o notabilizaram dentro das quatro linhas ao serviço do único clube da sua vida (1965-1984) foram o reflexo de uma educação esmerada. “No futebol não basta apenas ter jeito. É necessário espírito de sacrifício, vontade e garra. Ser solidário e ter o embalo dos pais. Tive colegas que se destacavam pelas capacidades técnicas, mas quando chegava a hora de treinar faltava o querer. Desculpavam-se que estava a chover ou que estava frio”, recorda.
João Rebelo é uma referência viva do desporto-rei na cidade de Lamego. Capitão de equipa e defesa central do clube do coração, foi, por três vezes, campeão da Associação de Futebol de Viseu Divisão de Honra e competiu durante treze anos na terceira divisão nacional. Um período de glória do clube que apresentava uma formação coesa e objetiva, embora perturbada aqui ou ali por momentos de menor fulgor.

As memórias que guarda com mais saudade daquele tempo são os domingos em que a cidade e o Estádio dos Remédios fervilhavam de emoção para receber as grandes equipas nacionais nos jogos a contar para a Taça de Portugal: “Toda a cidade vivia e sentia uma agitação muito grande. Marcou-me muito as partidas com as equipas de maior gabarito, como o Boavista ou o Belenenses. Havia enchentes que galvanizavam muita gente”.

Nos primeiros tempos como atleta, João Rebelo subia apressado o longo Escadório do Santuário dos Remédios para integrar os treinos e participar nas competições. O jogo “limpo” que praticava e o pragmatismo na hora de decidir os lances rapidamente o empurraram, aos dezassete anos, para a equipa sénior. Era, então, o mais novo entre os seus companheiros.

Jogador talentoso e maduro para a sua idade, depressa conquistou o respeito e a admiração dos companheiros e dos adversários e o carinho dos adeptos. Estava iniciada uma longa caminhada de verde e branco ao peito que iria durar dezanove anos e que tantas alegrias e alguns dissabores lhe deram: “O Sporting Clube de Lamego proporcionou-me, apesar de tudo, conhecimentos vários e uma vivência enriquecedora, em especial no campo das relações humanas. Ao longo dos anos vivi e assisti a situações das mais inqualificáveis às mais dignificantes, dentro e fora do campo desportivo”.

Desenganem-se aqueles que pensam que o futebol foi a primeira paixão desportiva a despertar no jovem João Rebelo. Levado pelo irmão mais velho, integrou em 1964 a primeira formação de voleibol do Ginásio Clube de Lamego que chegou a disputar o campeonato nacional da primeira divisão. À noite, no final dos treinos que decorriam no ginásio do Liceu Latino Coelho juntava-se aos colegas para fazer o “gosto ao pé” e “aquecer para o banho” disputando um pouco de futebol de salão. É nesta altura que ganha o apelido “Festa” que se colou para sempre na sua pele. “Como era, e continuo a ser, adepto do FC Porto e naquela época o expoente máximo era o Festa, lateral direito internacional, foi o nome por mim escolhido para me representar nas nossas brincadeiras”, explica.

Após cumprir o serviço militar obrigatório e “ter tido a sorte de não ser mobilizado para a guerra colonial”, João Rebelo começou a trabalhar no extinto Banco Pinto & Sotto Mayor, instituição à qual esteve ligado como empregado bancário durante quase três décadas. “Com muita força de vontade consegui conciliar diversas dimensões da minha vida. Trabalhava durante o dia. Ia depois à pressa buscar o equipamento a casa e seguia logo para os treinos. Não havia lanches, não havia nada. Tive uma vida muito preenchida. A minha esposa nunca gostou muito de futebol, mas adaptou-se e foi compreendendo as minhas ausências”, afirma.

Desde muito cedo, a prática desportiva despertou em João Rebelo uma forte paixão. No seu percurso desportivo, com mais de 600 jogos oficiais e particulares, aprendeu que em todas as circunstâncias da vida a melhor conduta é o desportivismo. Por isso, enfrentava os adversários com fair play e respeito, distinguindo-se, nas vitórias e nas derrotas, pelo seu comportamento ético. Era um cavalheiro dentro de campo, ao ponto de nunca ter sido sancionado com um cartão vermelho. Homem de uma profunda religiosidade, trazia sempre consigo ao pescoço a Imagem de Nossa Senhora dos Remédios e dispensava, por isso, outros amuletos ou rituais.

O respeito pelos valores que sempre defendeu e a afeição ao clube da terra incentivaram-no ainda a recolher e a guardar até hoje uma profusão enorme de documentos históricos desportivos. Alguns constituem os últimos testemunhos dos tempos áureos vividos pelo Sporting Clube de Lamego: “Agora vive uma fase bastante difícil. Já não é aquilo que era no meu tempo”.

Para além de atleta, ainda fez parte de uma equipa diretiva do clube, em autogestão, de 1974 a 1976, cargo que acumulou com uma colaboração no jornal “Voz de Lamego” para se dedicar à escrita de crónicas de jogos ou apontamentos sobre a vida do clube.

Ao olhar para trás, confessa, no entanto, que ficaram sonhos por cumprir. O seu esforço não foi suficiente para ajudar o clube a subir à 2ª divisão nacional, embora algumas vezes este objetivo tenha estado prestes a ser alcançado. Aos 72 anos, João Rebelo continua enamorado pela coreografia de uma jogada ou pelo rendilhado de um movimento que culmina em golo: “Orgulho-me de ter sido um desportista com uma carreira longa, bem vivida e de total entrega. Os títulos, as taças e medalhas foram coisas efémeras, alegrias de ocasião. Fazem parte da estatística e história do clube. Ficaram, sim, as amizades, os valores e recordações de todos aqueles que, com a mesma camisola, se entregaram na divulgação e projeção da cidade através do Sporting Clube de Lamego”.

#lamegoeuacredito | Texto: Ricardo Pereira / Fotografia: Joka Cardoso    
in Voz de Lamego, ano 91/16, n.º 4598, 2 de março de 2021