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Entrevista com o Pe. António Martins Teixeira

Há algumas semanas, tínhamos solicitado à Diretora do “Notícias de Resende”, dra. Cármina Fonseca, esta entrevista com o Pe. António Martins, por forma a publicarmos na Voz de Lamego. Era uma questão de sinergia, tínhamos o propósito e já que havia uma entrevista recente, aproveitaríamos a trabalho realizado e publicaríamos agora no início de janeiro. Entretanto, o Pe. António Martins faleceu, mas ainda assim mantemos este propósito e disponibilizamos a entrevista, agradecendo à jornalista Cármina Fonseca o trabalho realizado.

“Dediquei a minha vida a Resende”

O Padre António Martins, conhecido por toda a diocese e o único apelidado de “Sr. Abade”, é uma figura ímpar no concelho de Resende, por ser um homem humilde, alegre e com uma simplicidade de vida de homem do povo e sempre próximo de todos.
No passado dia 22 de julho celebrou 70 anos de sacerdócio, 54 dos quais ao serviço da paróquia de Resende, e 95 anos de batismo.
Em entrevista ao Notícias de Resende referiu que ainda celebra missa diariamente, ainda conduz e falou do seu percurso enquanto sacerdote e da sua dedicação a Resende.

Notícias de Resende (NR) – Como e quando surgiu o seu percurso no sacerdócio?
Pe. António Martins (AM) – Eu comecei a minha vida sacerdotal em 1951, no concelho de Foz Côa, numa freguesia chamada Mós. Era uma freguesia sem facilidades absolutamente nenhumas. Não havia telefone, não havia estradas, não havia luz, não havia nada. Fui para uma casa que era de um antigo tio do Sá Carneiro, com a minha irmã e lá estive 4 anos, com muita dificuldade.
Gostei muito de lá estar, embora tivéssemos uma vida um pouco solitária.
Não havia meios de comunicação nenhuns. Morreu a minha avó quando eu lá estava e eu não soube. Foi lá que comecei a minha vida de professor. Havia um colégio na vila de Foz Côa, antes da Escola Secundária e convidaram-me para eu lá ir dar aulas e eu fui. Ia a cavalo.
De lá fui para Cabaços, Moimenta da Beira. Aí dediquei-me mais à parte pastoral e adaptei-me um pouco a isso.
De cabaços fui para Paredes da Beira, em S. João da Pesqueira, onde estive 8 anos. Em setembro de 1967, tomei posse como pároco da paróquia de Resende e aqui estou até hoje.

NR – Foi para o seminário por influência de alguém ou tinha alguém na família padre?
AM – Eu nasci e cresci numa família crente e bastante religiosa. O meu padrinho de Crisma era padre. A minha freguesia, Touro (Vila Nova de Paiva) deu vários padres e até bispos à Igreja. O meu pai era lavrador, cultivava terras. Quem influiu para eu ir para o seminário foi o meu padrinho, que era professor e era aposentado. Falava muito com a professora de lá que era mal-empregado não me mandarem estudar e, naquela altura, só indo para o seminário.
O meu pai e o meu padrinho fizeram um acordo. Como o meu pai não tinha dinheiro para me mandar estudar acordou em granjear as terras do meu padrinho e ele pagava as despesas no seminário. Fui para o Seminário de Resende com 12 anos.
Sem esta ajuda não poderia ter vindo, porque naquela altura havia muita miséria e fui o único de 11 irmãos que estudou.

NR – Mas foi para o Seminário por vocação…
AM – Sim. Eu vim com gosto e muito prazer. Sempre quis ser padre.
Senti-me sempre bem aqui e nunca desanimei nem tive tentação de sair.
Do Seminário de Resende, onde estive 4 anos, segui para o Seminário de Lamego para frequentar, durante oito anos, os cursos de Filosofia e Teologia.
Depois frequentei ainda, como aluno voluntário, o curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

NR – Como foi a chegada a Resende como padre?
AM – Em Resende tive uma entrada triunfal porque estavam sem pároco.
O povo estava ansioso por um padre. O dia da minha chegada foi preparado. As pessoas foram esperar-me ao Bulho (à entrada da freguesia). Foram as autoridades todas.
Fiz aqui uma série de coisas como padre que ninguém fazia.
No primeiro ano convidei, nominalmente, todos os funcionários públicos para reuniões, desde o juiz, a advogados, o presidente da Câmara, o chefe das Finanças, etc. Fazia reuniões no salão nobre da Câmara, todas as quinta-feiras e durante 2 anos.
Era para os ajudar religiosamente. Conversávamos sobre assuntos religiosos e outros assuntos. Depois comecei a fazer retiros aos jovens durante as férias, para prender os jovens. Conversava com eles e expunha assuntos.
A minha preocupação primeira, enquanto pároco, sempre foi a ação pastoral, organizando a catequese, preparando as pessoas para os sacramentos e formando os cristãos na fé.

NR – O ensino era algo que o fascinava…
AM – Sim, comecei a dar aulas logo que iniciei a minha vida sacerdotal. Em Paredes da Beira criei uma miniescola, na casa paroquial, onde cheguei a ter 20 alunos.
Em casa fundei uma escola familiar e preparei 6 sobrinhos para tirarem um curso superior. Eu lecionava sozinho todas as disciplinas e preparava os jovens para os exames que eram feitos no Liceu de Lamego.

NR – O Externato D. Afonso Henriques foi uma das suas grandes obras…
AM – Eu fui professor no Externato, em 1967, ainda tinha instalações em Massas, onde se lecionava até ao 5.º ano (atual 9.º ano). Depois abriu a Escola Preparatória e o Externato foi obrigado a fechar por um ano, mas havia a questão da continuidade para quem desejasse prosseguir estudos após o 9.º ano.
Depois de adquirirmos os terrenos junto da Igreja, edificamos aí umas instalações para fins pastorais. Numa visita a essas instalações, o Sr. Bispo da altura, a pedido de alguns pais, para não mandarem os filhos para Lamego para prosseguir estudos, pediu-me para mediar a resolução deste problema.
Em 1978, iniciei o 10.º ano, com uma turma de 17 alunos, em instalações precárias, sendo as aulas dadas por professores em regime de voluntariado. Ano após ano o número de inscritos foi aumentando e, mais tarde, começamos a lecionar do 7.º ao 12.º ano.
Para mim foi triste o seu encerramento, pois vi este projeto nascer e crescer para bem da educação e dos jovens de Resende, tendo sido seu diretor entre 1978 até 1991.

NR – Sempre teve um espírito empreendedor…
AM – Sim. Este bairro onde moro era uma quinta. Eu e mais uns amigos compramos essa quinta e formamos aqui uma vacaria, com todas as condições. Fui à Holanda com um veterinário comprar as vacas. Corremos a Holanda toda a escolher vacas. Trouxemos 100 vacas.
Aguentamos aquilo 4 ou 5 anos. Vendíamos 1000 litros de leite por dia para Vila do Conde. Depois veio a crise, as farinhas subiram muito o preço e vendemos as vacas. Foi loteado terreno e fizemos casas. A minha casa foi a primeira. Num ano vendemos os lotes todos e fizemos contas com os sócios.

NR – Atualmente, apesar dos seus 95 anos, ainda continua a celebrar a missa…
AM – Sim. Celebro missa todos os dias na capela da Senhora da Livração. Aos domingos, regra geral, celebro na Igreja Nova. Confesso algumas pessoas também.

NR – Concorda com o celibato obrigatório?
AM – Eu para já, concordo. Mas fala-se que daqui a uns tempos este problema está encaminhado no sentido de ordenar homens casados. Não é deixar casar os padres. Acho mal os padres serem casados depois de serem padres.
Se realmente um homem é cristão, praticante e dá provas, o facto de estar casado, nada obstante.

NR – Acha que a igreja precisa de mudar para atrair mais pessoas?
AM - Acho que a igreja tem de evoluir porque isto está mau. Os Bispos todos e a Igreja estão a pensar no problema. Alguma coisa tem de mudar, ou tem de haver outro concílio talvez. Não vejo solução nenhuma.
Mas agora é um tempo diferente. Se vamos avaliar a Igreja por estes tempos de covid estamos mal.
A igreja deu a entender que não seria pecado faltar à missa e as pessoas vêm menos.
Antes já se sentia um afastamento das pessoas da Igreja, mas mesmo que passe o vírus, penso que vai ficar pior porque as pessoas desabituam-se. A igreja tem de pensar muito a sério nisso.

NR – Como é habitualmente o seu dia a dia?
AM – Tenho aqui 3 sobrinhas. Vivo sozinho mas com o apoio delas.
Levanto-me às 8 horas. Vou fazer o café. Rezo o meu breviário, se vier o sono durmo um bocadito. Outras vezes leio um bocadinho. À tarde celebro a missa e pouco mais faço. Vejo um bocadinho de TV e depois tenho a internet.