D. António Couto, O Menino e a Sua Mãe
A figura de Maria nas Escrituras Santas
Mais um belíssimo contributo do nosso Bispo para quem quiser aprofundar o papel, a missão, a identidade de Maria, partindo dos textos da Sagrada Escritura, numa ligação estreita a Jesus.
Nada melhor do que deixarmos o autor falar sobre esta proposta:
“Dada a carga simbólica e poética que atravessa este texto, que mostra em filigrana a figura de Maria, e que a Maria ofereço em jeito de cantata, ouso abri-lo com o título, que acarreta também expressão musical, de prelúdio.
É bom ter os olhos e os ouvidos abertos e atentos para que, da letra e da música da cantata, do acumular de tantos textos da Escritura Santa, agora reunidos e irmanados, revisitados, revigorados e entretecidos com rigor e amor, os possamos pôr de pé, a formar novos acordes, palpitações novas sobrecarregadas de sentido.
Começa esta melodia com o anúncio do anjo a Maria de que dará à luz um filho, filho seu e Filho de Deus, inscrito na descendência de David, e cujo reinado salta fora dos nossos cálculos, pois é dito que não conhecerá fim (cf. Lc 1,31-33). Aos títulos reais de Cristo, aqui e assim enunciados, corresponde algum título de Maria? Um único: ela é a sua mãe, que o concebe e o dá à luz.
Ela é a mãe do Rei, a rainha-mãe, que, como mostra o Antigo Testamento e os procedimentos em uso no mundo circunvizinho do Médio Oriente Antigo, assumia, na corte real, um estatuto único de elevada dignidade. É assim que ganha corpo a locução «o rei e a sua mãe», que se encontra por 21 vezes nos elos da dinastia davídica, como se pode ver folheando os dois livros dos Reis. Por sua vez, no livro de Jeremias contabilizam-se quatro menções desta fórmula estupenda.
Além desta fórmula marcante, que associa ao rei a sua mãe, mais do que a sua esposa, as páginas da Escritura Santa do AT, em alguns dos seus livros, ainda enaltecem a figura da mãe do rei, por cinco vezes, com o título nobre de gebîrab (1 Rs 15,13; 2Rs 10,13; 2Cr 15,16; Jr 13,18 e 29,2), que concede à rainha-mãe, na corte real de Jerusalém, um estatuto de especial relevância e dignidade.
Este estatuto de particular relevância da rainha-mãe está patente nos dois livros dos Reis, constando habitualmente o nome da rainha-mãe, associado ao rei, seu filho, no elenco dos reis de Judá. A fórmula habitual é como segue: «O rei X reinou n anos em Jerusalém, e a sua mãe chamava-se Y.» Limpando todos os excedentes desnecessários, ficamos com a fórmula limpa «o rei e a sua mãe», que constitui um filão de ouro que atravessa, de lés a lés, a dinastia davídica, vindo à tona do texto pelo menos 21 vezes, como já se disse. Esta extraordinária locução, «o rei e a sua mãe», de forma insistente detetada nas páginas da dinastia davídica, pode prenunciar e esclarecer aquela locução mateana «o Menino e a sua mãe» (tò paidion kai tên mêtéra autoû), por cinco vezes repetida (Mt 2,11.13.14.20.21), associando Jesus e Maria, mostrando haver entre os dois uma unidade inseparável.
A locução «o rei e a sua mãe», que já comparámos a um filão de ouro detetado nos elos da dinastia davídica, abre-se em efeito girândola, atravessando textos bem conhecidos e importantes, como Is 7,14; 8,23-9,6; 11,1-9; Mq 5,1-2, e outros menos conhecidos, mas igualmente importantes e surpreendentes, como Gn 3,14-15 e 4,1. Em todos estes cenários, é a mulher e mãe que transporta a esperança messiânica, ficando na penumbra qualquer alusão à figura paterna.
É neste contexto da mulher e mãe que transporta a esperança messiânica que ganha sentido o tratamento da mãe de Jesus por «Mulher», posto nos lábios de Jesus nas duas cenas de Caná (o 2,1-11) e do Calvário (Jo 19,26-27). E também verificaremos que este singular tratamento não só não constitui um dizer depreciativo, como guarda mesmo um verdadeiro tesouro. De facto, a «Mulher» é muitas vezes, ao longo da Escritura Santa, apresentada como símbolo do Povo de Deus e, mais concretamente, da cidade de Sião-Jerusalém, personificada como esposa amada, enlevo e alegria de Deus, que é o esposo fiel da Terra de Israel (cf. Is 54,1-7.11-13 e 62,1-5), e como mãe embevecida dos inumeráveis filhos de Deus, vindos de todas as nações (cf. Sl 87; Is 2,2-5; 49,21; 60,1-5; 66,8; Br 4,36-5,5; Mq 4,1-5). Abre-se aqui o acesso a uma verdadeira geoteologia, avenida de luminoso sentido que mostra ainda a interpelação da mãe de Jesus por «Mulher» como a personificação da Mãe-Sião.
O livro do Apocalipse oferece-nos também ricas fulgurações sobre a Mulher, Mãe e Esposa, recuperando e engrandecendo muito do ideário atravessado. Prestaremos particular atenção ao texto de Ap 12,1-17, de que faremos uma análise muito ampla, mas olharemos também para o texto de Ap 21,2-10.
Os textos bíblicos estudados são muitos, e são riquíssimos.
Colocá-los-emos sempre à flor da página, em tradução sempre que possível literal, para que o leitor os possa ter sempre diante dos olhos, enquanto prossegue a leitura deste livro.
Confesso que a confeção e o entrelaçamento destes saberes e sabores foram, para mim, uma contínua surpresa, repleta de deleite e encantamento.
Desejo ao leitor a mesma surpresa e o mesmo encanto”.
O livro está disponível na Gráfica de Lamego.



